Publicidade

Mostrando postagens com marcador Poemas e Poesias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poemas e Poesias. Mostrar todas as postagens

4 Poemas de Auta de Souza

 Falando ao Coração Auta de Souza


A Generosa Pinheiro


Desperta, coração! vamos morar

N’uma casinha branca, ao pé do Mar...

Que seja linda como é linda a Lua

Que em noites santas pelo Azul flutua:

Imaculada como a luz do Amor,

Alva de neve como um sonho em flor.


Quando a Noite vier... se no meu seio

Estremeceres cheio de receio,

- Tremendo a sombra que amortalha o Dia

E cobre a terra de melancolia, -

Longe do mundo e da desesperança,

Hei de embalar-te como uma criança.


Quero que escutes o gemer profundo

Do Mar que chora a pequenez do mundo

E ouças cantar a doce barcarola

Da noite imensa que se desenrola,

Dando perfume ao coração dos lírios,

Trazendo sonhos para os meus martírios.


E quando o Sol nascer; quando, formosa

Como uma garça branca e misteriosa,

Batendo as asas cor de neve, a Aurora

Vier cantando pelo mundo a fora,

Rufla as asas também... e forte, então,

Tu podes palpitar, meu coração!


Acorda para a Vida e canta e canta,

O Sol da Terra - iluminada e santa!

Deixa o teu sonho de saudade e dores

Dormir no seio trêmulo das flores...

E foge e foge pelo Espaço, à toa,

Pomba exilada que a seus lares voa!


Esquece a louca e pálida amargura

Que há tantos anos meu viver tortura...

Canta o teu hino de ilusão querida,

Esquece tudo o que não seja a Vida,

E, para o Céu das alegrias mansas,

Conduz nas asas minhas esperanças...


Não vês? Minh’alma é como a pena branca

Que o vento amigo da poeira arranca

E vai com ela assim, de ramo em ramo,

Para um ninho gentil de gaturamo...

Leva-me, ó coração, como esta pena

De dor em dor até à paz serena.


Desperta, coração, vamos morar

N’uma casinha branca, ao pé do Mar...

Quero que escutes, a sonhar comigo,

A queixa eterna do Oceano amigo

E ouças o canto triunfal da Aurora

Batendo as asas pelo Mar a fora...


Barro Vermelho.

De joelhos

Auta de Souza



A Maria da Glória Penna


Ajoelhada, ó minh’alma, abraçando o madeiro

Em que morreu Jesus, o teu celeste amigo!

A seus pés acharás o pouso derradeiro,

O derradeiro amparo, o derradeiro abrigo.


Ajoelha e soluça... A noite, mãe piedosa,

Te aperta contra o seio e te ensina a rezar...

Balbucia a oração, pequenina e formosa,

Das estrelas no céu e das ondas no Mar.


Ajoelha e soluça, implorando a alegria

Que a saudade sem fim do coração te arranca,

E a graça de viver, como a Virgem Maria,

Eternamente pura, eternamente branca.


Ajoelha e repete a prece imaculada

Que aprendeste a rezar no tempo de criança;

Deixa a prece subir como uma ária encantada

Se evolando da terra ao País da Esperança.


Ajoelha e soluça... A dúvida, que importa?

Ninguém poderá rir ante uma dor tamanha...

Todos beijam a Cruz, toda a descrença é morta

Quando se chega ao pé da sagrada montanha.


De joelhos, minh’alma, ao pé do lenho santo

Em que sofre Jesus a derradeira pena!

Deixa cair-lhe aos pés em gotas o teu pranto...

Que as enxugue no Céu a doce Madalena!


Ajoelha e soluça, implorando a alegria

Que a saudade sem fim do coração te arranca,

E a graça de viver, como a Virgem Maria,

Eternamente pura, eternamente branca...


Serra da Raiz - 2 - 1898

Ao Cair da Noite

Auta de Souza

A Maria Emília Loureiro

Não sei que paz imensa
Envolve a Natureza,
N’ess’hora de tristeza,
De dor e de pesar.
Minh’alma, rindo, pensa
Que a sombra é um grande véu
Que a Virgem traz do Céu
Num raio de luar.

Eu junto as mãos, serena,
A murmurar contrita,
A saudação bendita
Do Anjo do Senhor;
Enquanto a lua plena
No azul, formosa e casta,
Um longo manto arrasta
De lúrido esplendor.

Minhas saudades todas
Se vão mudando em astros...
A mágoa vai de rastros
Morrer na escuridão...
As amarguras doidas
Fogem como um lamento
Longe do Pensamento,
Longe do Coração.

E a noite desce, desce
Como um sorriso doce,
Que em sonhos desfolhou-se
Na voz cheia de amor,
Da mãe que ensina a Prece
Ao filho pequenino,
De olhar meigo e divino
E lábio aberto em flor.

Ah! como a Noite encanta!
Parece um Santuário,
Com o lindo lampadário
De estrelas que ela tem!
Recorda-me a luz santa,
Imaculada e pura,
Da grande noite escura
Do olhar de minha mãe!

Ó noite embalsamada
De castas ambrósias...
No mar das harmonias
Meu ser deixa boiar.
Afasta, ó noite amada,
A dúvida e o receio,
Embala-me no seio
E deixa-me sonhar!


Ao Clarão da Lua

Auta de Souza

A Meu Irmão Eloy

O LÍRIO
Lá nas alturas, modesta e loura,
- Do Céu imenso na face nua -
A lua branca todo o Azul doura...

A NUVEM
Ah! se eu pudesse mudar-me em lua:

O PERFUME
E aquela estrela, tão pequenina
Que mal a gente consegue vê-la,
Como cintila, casta e divina!

A LUA
Ah! quem me dera ser uma estrela!

A NUVEM
O lírio branco, cheio de orvalho,
Invoca a lua no seu martírio
E doce e triste treme no galho...

A ESTRELA
Ah! quem me dera ser como o lírio!

O CÉU
Perfume doce bóia nos ares...
Virá nas asas de um vaga-lume?
Será da terra? Será dos mares?

O ORVALHO
Ah! quem me dera ser o perfume!

O POETA
Terno instrumento suspira ao longe
Numa cadência melodiosa...
Será na cela piedoso monge?

UMA CRIANÇA (sonhando)
Ah! quem me dera ser uma rosa!

A NOITE
O sonho vive dentro em meu seio,
Garrulo e meigo, doce e risonho,
Cheio de luzes, de aurora cheio...

O PERFUME
Ah! quem me dera ser como o Sonho!

A MADRUGADA (ao longe)
Ouvem? As aves já vêm cantando,
As estrelinhas tomam seu véu...
É tempo de irmos também chegando...

O CORAÇÃO
Ah! quem me dera subir ao Céu!

Janeiro de 1897.

Ao Clarão da Lua, de Auta de Souza
Veja também

Auta de Souza foi uma poetisa brasileira da segunda geração romântica. Quando tinha doze anos, vivenciou nova tragédia: a morte acidental de seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Sousa, causada pela explosão de um candeeiro (Wikipedia)

7 Poemas de Euclides da Cunha | Literatura Brasileira

7 Poemas de Euclides da Cunha que você precisa conhecer | Literatura Brasileira

Euclides da Cunha reconhecido por seu trabalho, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1903.

1 - A FLOR DO CÁRCERE


Nascera ali _ no limo viridente
Dos muros da prisão _ como uma esmola
Da natureza a um coração que estiola _
Aquela flor imaculada e olente...

E 'ele' que fora um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O lábio seco, na úmida corola
Daquela flor alvíssima e silente!...

E _ ele _ que sofre e para a dor existe _
Quantas vezes no peito o pranto estanca!...
Quantas vezes na veia a febre acalma,

Fitando aquela flor tão pura e triste!...
_ Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma...

[1884?] 


*Publicado na "Revista da Família Acadêmica", número 1, Rio de Janeiro, novembro de
1887.

Euclides da Cunha. Escritor homenageado da 17º FLIP - Feira Literária de Paraty.

Fonte Portal Domínio Público


2 - Ondas, de Euclides da Cunha



ONDAS

Correi, rolai, correi _ ondas sonoras
Que à luz primeira, dum futuro incerto,
Erguestes-vos assim _ trêmulas, canoras,
Sobre o meu peito, um pélago deserto!
Correi... rolai _ que, audaz, por entre a treva
Do desânimo atroz _ enorme e densa _
Minh'alma um raio arroja e altiva eleva
Uma senda de luz que diz-se _ Crença!
Ide pois _ não importa que ilusória
Seja a esp'rança que em vós vejo fulgir...
_ Escalai o penhasco ásp'ro da Glória...
Rolai, rolai _ às plagas do Porvir!

[1883]



Fonte:
Domínio Público

3 - Eu quero, poema de Euclides da Cunha



EU QUERO


Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas
_ Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos
Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...

Eu quero aí viver _ o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar _ os tristes prantos meus...
E envolto o coração nas sombras do mistério,
Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!

Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...
Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,
Beber a Calma, o Bem, a Crença _ ardente a altiva.

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das asp'ras cachoeiras que irrompem do sertão...
E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da so'idão...

[1883]



Euclides da Cunha. Escritor homenageado da 17º FLIP - Feira Literária de Paraty.

Fonte:
Domínio Público



4 - Dantão, poema de Euclides da Cunha


DANTÃO

Parece-me que o vejo iluminado.
Erguendo delirante a grande fronte
_ De um povo inteiro o fúlgido horizonte
Cheio de luz, de idéias constelado!

De seu crânio vulcão _ a rubra lava
Foi que gerou essa sublime aurora
_ Noventa e três _ e a levantou sonora
Na fronte audaz da populaça brava!

Olhando para a história _ um século e a lente
Que mostra-me o seu crânio resplandente
Do passado através o véu profundo...

Há muito que tombou, mas inquebrável
De sua voz o eco formidável
Estruge ainda na razão do mundo!

[1883]



Euclides da Cunha. Escritor homenageado da 17º FLIP - Feira Literária de Paraty.

Fonte


5 - TRISTEZA, poema de Euclides da Cunha


TRISTEZA


Ai! quanta vez _ pendida a fronte fria
_ Coberta cedo do cismar p'los rastros _
Deixo minh'alma, na asa da poesia,
Erguer-se ardente em divinal magia
À luminosa solidão dos astros!...

Infeliz mártir de fatais amores
Se ergue _ sublime _ em colossal anseio,
Do alto infinito aos siderais fulgores
E vai chorar de terra atroz as dores
Lá das estrelas no rosado seio!
............................................................................................
É nessa hora, companheiro, bela,
Que ela a tremer _ no seio da soedade
_ Fugindo à noite que a meu seio gela _
Bebe uma estrofe ardente em cada estrela,
Soluça em cada estrela uma saudade...
............................................................................................
É nessa hora, a deslizar, cansado,
Preso nas sombras de um presente escuro
E sem sequer um riso em lábio amado _
Que eu choro _ triste _ os risos do passado,
Que eu adivinho os prantos do futuro!...

[1883]



Euclides da Cunha. Escritor homenageado da 17º FLIP - Feira Literária de Paraty.

Fonte
Domínio Público



6 - STELLA, poema de Euclides da Cunha


STELLA


A Sebastião Alves

"Eu sou fraca e pequena..."
Tu me disseste um dia,
E em teu lábio sorria
Uma dor tão serena,

Que a tua doce pena
Em mim se refletia
_ Profundamente fria,
_ Amargamente amena!...

Mas essa mágoa, Stella,
De golpe tão profundo,
Faz tu por esquecê-la _
Das vastidões no fundo
_ É bem pequena a estrela _
No entanto _ a estrela é um mundo!...




Euclides da Cunha. Escritor homenageado da 17º FLIP - Feira Literária de Paraty.

Fonte
Portal Domínio Público


7 - Estâncias, poema de Euclides da Cunha


ESTÂNCIAS [Publicado em "Revista da Família Acadêmica", Rio de Janeiro, out. 1888.]
XII
Les beaux yeux sauvent les beaux vers!...
V. Hugo

Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões _ ó pálida criança _
Revive à doce luz do teu olhar magoado

E cheio de ilusões, de crenças e esperança
Faz o castelo ideal das louras utopias
_ Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! _

*
Quando sobre as sombrias
Ondas _ vasto o luar esplêndido se espalma
De todo o seu negror, arranca as ardentias

De teus olhos assim à luz divina e calma
Dimanam _ cintilando _ as ilusões e os versos
Das sombras de minh'alma...

E sonho e canto e rio e me deslumbro... imersos
_ No místico luar que sobre mim derramas _
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!...

Fulguram como sóis _ entre sonoras flamas
Partindo no meu peito a tétrica penumbra
E o silêncio fatal de dolorosos dramas...

E tudo hoje ante mim tem luz, tem voz _ deslumbra _
Pois _ tal como dos sóis a claridade instila
De cada um ideal _ uma canção ressumbra _
E em cada uma canção _ o teu olhar cintila...
[São Paulo, jan. 1888]

7 Poemas de Euclides da Cunha | Literatura Brasileira





Veja também
Euclides da Cunha. Escritor homenageado da 17º FLIP - Feira Literária de Paraty.

Fonte
Domínio Público

Poesias e poemas para sala de aula: Português, Geografia, Sociologia, Artes, História e outras. Sobre diversos temas como saudade, carnaval, amor, etc. Sugeridas para trabalhar em sala de aula do ensino fundamental e ensino médio.

Poemas de Castro Alves - Poesias Colegiais

 

3. POESIAS COLEGIAIS


Ao Natalício do meu Diretor, o Ilmo. Sr. Dr. Abílio César Borges.


I


Grato sempre à mocidade,

Belo dia, hás de raiar;

Sempre ela muito contente

Mil flores te há de ofertar!


Sempre em ti se entregará

Ao prazer com expansão;

Mil cultos render-te-á

Nos altares d'afeição.


Pois em ti, sublime dia,

Do alto dos céus baixou

O anjo que à mocidade

Dos rigores libertou.


Baixou este grande homem,

Que tanto anima a instrução,

Estimulando co'amor

O infantil coração.


II


Nasceu hoje meu bom Diretor,

Para honra do grande Brasil,

Preparando na infância, que educa,

Para a pátria futuro gentil.


É por isso que o sol orgulhoso

Ergue a fronte soberba e brilhante;

É por isso que as flores exalam

Um perfume mais doce e fragrante.


É por isso que tão cristalinos

Os regatos se alongam ao mar,

E as aves co'as cores tão vivas

Brincam — ternas — voando no ar.


E os ventos tão meigos e frescos

Sussurrando as campinas percorrem.

E as abelhas em busca de mel

Às florinhas contentes já correm.


É por isso enfim que tão bela

A natura se ostenta no mundo;

É por isso que a infância já sente

Regozijos do peito no fundo.


III


Eia! cantemos cantemos!...

Com grinaldas coroemos

Neste belo e grande dia

Do natalício de amor

O nosso bom Diretor,

Que tão zeloso nos guia.


Bahia, Ginásio Baiano, 9 de setembro de 1860.


Poesias Colegiais, de Castro Alves.


2. QUAL LEÃO

Recitada pelo aluno Antônio de Castro Alves no Outeiro que teve lugar no Ginásio

Baiano a 3 de julho de 1861.


I


Qual leão encostado à dura rocha

Da grande serra, onde o senhor habita,

Vestido de áurea juba reluzente,

O débil caçador ao longe fita;


E grande e generosa que podia

De momento em seu sangue se banhar,

Deixa-o seguir com pena o seu destino

Sem seu poder e forças lhe mostrar:


Tal o Brasil sentado junto às margens

Do verde oceano que seus pés lhe beija,

E recostado sobre o alto Ande

Que além nos ares, pelo céu flameja.


Vestido desse manto lindo e belo

Que nunca o frio inverno desbotou;

Bordado dos diamantes, do ouro fino,

Das lindas flores com que Deus o ornou;


Viu chegar-se de Lísia a cruel gente

Batida pelos ventos e tufão,

Débeis de forças, débeis de esperança,

E apenas merecendo compaixão;


Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;

Deixa-os gozar dos puros céus de anil;

Deixa-os fruir de todas as riquezas,

Que o mundo antigo inveja do Brasil.


II


Mas o gigante que amigo

Unira alegre consigo

O peregrino estrangeiro,

Em breve sentiu, raivoso,

Seu colo altivo, orgulhoso,

Sob triste cativeiro.


Sentiu em breve o grilhão

Da mais torpe servidão

Atar-lhe a fronte sob'rana;

Essa fronte majestosa

A quem coroa formosa

Dava a gente Americana!


Mas perdendo o sangue frio,

Recordando o antigo brio,

O seu antigo valor;

S'ergue súbito da terra

E exclama com voz que aterra

Ardente d'ira e furor:


"Lísia, que fostes o horror

Dos povos de outro equador

Com teu imenso poder;

Que com as tuas falanges

Às Índias, que banha o Ganges,

Fizeste humilde tremer;


"Sabe que a Índia de agora

Tem outra mais bela aurora;

São Índias, mas do Amazonas,

Sabe que eu sou o Brasil;

Tenho povo senhoril

Como não têm outras zonas.


"Se o índio, o negro africano,

E mesmo o perito Hispano

Tem sofrido servidão;

Ah! Não pode ser escravo

Quem nasceu no solo bravo

Da brasileira região!


E ei-lo já arrojante

De sangue imigo espumante

A destruir, a matar;

Busca de todos os lados

Os mandões que, amedrontados,

Caem na terra e no mar.


Uns Lusitanos já correm,

Outros aos golpes já morrem

Deste novo Adamastor;

Não podendo já mostrar

O seu valor militar

Tremem feridos de horror.


Em Pirajá, em Cabrito,

De Lísia já se ouve o grito,

Surdos gemidos de dor;

Já nem se lembram de glória,

Esquecem té a memória

Dos seus feitos de valor.


Uns acham vida fugindo,

Outros morrem, mas sentindo

Os pulsos do Brasileiro;

Então conhecem, medrosos,

Que para peitos briosos

É quimera o cativeiro.


Então soberbo o gigante

Com sua fronte brilhante

As suas armas deixou;

E levantando os troféus

Clama ousado para os céus:

— Lísia, sim, já livre sou —.


 Castro Alves



3. A Boa Vista

Castro Alves


Sonha, poeta, sonha! Aqui sentado

No tosco assento da janela antiga,

Apóias sobre a mão a face pálida,

Sorrindo — dos amores à cantiga.

Álvares de Azevedo


Era uma tarde triste, mas límpida e suave...

Eu — pálido poeta — seguia triste e grave

A estrada, que conduz ao campo solitário,

Como um filho, que volta ao paternal sacrário,


E ao longe abandonando o múrmur da cidade

— Som vago, que gagueja em meio à imensidade, —

No drama do crepúsculo eu escutava atento


A surdina da tarde ao sol, que morre lento.

A poeira da estrada meu passo levantava,

Porém minh'alma ardente no céu azul marchava

E os astros sacudia no vôo violento

— Poeira, que dormia no chão do firmamento.

A pávida andorinha, que o vendaval fustiga,


Procura os coruchéus da catedral antiga.

Eu — andorinha entregue aos vendavais do inverno.

Ia seguindo triste p'ra o velho lar paterno.

Como a águia, que do ninho talhado no rochedo

Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo,

— (P'ra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento,


E o mar,-corcel que espuma ao látego do vento...

Longe o feudal castelo levanta a antiga torre,

Que aos raios do poente brilhante sol escorre!

Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito

Mergulhando o pescoço no seio do infinito,

E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos


Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos!...

Não! Minha velha torre! Oh! atalaia antiga,

Tu olhas esperando alguma face amiga,

E perguntas talvez ao vento, que em ti chora:

"Por que não volta mais o meu senhor d'outrora?

Por que não vem sentar-se no banco do terreiro


Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro

E pensando no lar, na ciência, nos pobres

Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres?

Onde estão as crianças-grupo alegre e risonho

— Que escondiam-se atrás do cipreste tristonho...

Ou que enforcaram rindo um feio Pulchinello,


Enquanto a doce Mãe, que é toda amor, desvelo

Ralha com um rir divino o grupo folgazão,

Que vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?...~


É nisto que tu cismas, ó torre abandonada,

Vendo deserto o parque e solitária a estrada.

No entanto eu estrangeiro, que tu já não conheces—

No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.

Oh! deixem-me chorar!... Meu lar... meu doce ninho!


Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho!

Passado— mar imenso!... inunda-me em fragrância!

Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância.

Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões


Lançaram misturadas glórias e maldições...

Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!

Deixa est'alma chorar em teu ombro encostada!

Meu lar está deserto... Um velho cão de guarda

Veio saltando a custo roçar-me a testa parda,


Lamber-me após os dedos, porém a sós consigo

Rusgando com o direito, que tem um velho amigo..

Como tudo mudou-se!... O jardim 'stá inculto

As roseiras morreram do vento ao rijo insulto...

A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros

A ortiga silvestre enrola em nós impuros


Uma estátua caída, em cuja mão nevada

A aranha estende ao sol a teia delicada!...

Mergulho os pés nas plantas selvagens, espalmadas,


As borboletas fogem-me em lúcidas manadas...

E ouvindo-me as passadas tristonhas, taciturnas,

Os grilos, que cantavam, calaram-se nas furnas...


Oh! jardim solitário! Relíquia do passado!

Minh'alma, como tu. é um parque arruinado!

Morreram-me no seio as rosas em fragrância,

Veste o pesar os muros dos meus vergéis da infância,


A estátua do talento, que pura em mim s'erguia,

Jaz hoje — e nela a turba enlaça uma ironia!...


Ao menos como tu, lá d'alma num recanto

Da casta poesia ainda escuto o canto, —

Voz do céu, que consola, se o mundo nos insulta,

E na gruta do seio murmura um treno oculta.

Entremos!... Quantos ecos na vasta escadaria,

Nos longos corredores respondem-me à porfia!...


Oh! casa de meus pais!... A um crânio já vazio,

Que o hóspede largando deixou calado e frio,

Compara-te o estrangeiro, caminhando indiscreto

Nestes salões imensos, que abriga o vasto teto.

Mas eu no teu vazio — vejo uma multidão

Fala-me o teu silêncio — ouço-te a solidão!...


Povoam-se estas salas...

E eu vejo lentamente

No solo resvalarem falando tenuemente

Dest'alma e deste seio as sombras venerandas

Fantasmas adorados — visões sutis e brandas...

Aqui... além... mais longe... por onde eu movo

o passo,


Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço,

Saudades e lembranças s'erguendo — bando alado

— Roçam por mim as asas voando p'ra o passado.


Castro Alves

A Boa Vista


4. PARTIDA DO MEU MESTRE DO CORAÇÃO



O Exmo. Sr. D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará.


Oh! Que silêncio expressivo!

Que triste melancolia!

Tudo nos diz dores;

Tudo nos diz agonia!

Chora terno o caro mestre,

O discip'lo também chora;

Que todos sofrem agora!


Apenas ouço soluços

Arrancados dentre prantos!

Tristes ais, filhos da dor,

Partidos de peitos tantos!

Frases puras que bem dizem

O sofrer, as aflições,

Que pungem tais corações!...


Mas por que todos conjuntos,

Estais assim a chorar?

Que motivo vossas almas

Pôde assim sensibilizar?

Que motivo vossos peitos

Faz assim 'starem sofrendo;

Tantas dores padecendo?


Ai! É que a ausência penosa

Já pouco tarda a chegar!

É que impiedoso o destino

Dos olhos vai nos roubar

O mestre, o mestre querido,

Que nos sabia ensinar

A nosso Deus adorar!


Ai! É que dentro em breve

(Talvez p'ra sempre, oh! meu Deus!)

Não possamos mais ouvir

Os santos conselhos seus!

Ele tão bom nos guiava

A salvo por entre a lida

Desta tão custosa vida!


Chora, bem triste, Ginásio,

Derrama pranto sem fim!

Ah! Chora que isto consola

A quem sofre dor assim!.

Chora, que não mais verás

Unido alegre contigo

O teu mestre, o teu amigo!


Chora, chora, meu Ginásio.

Eis a hora de partir,

D'hora em diante saudades

Cruéis vos hão de ferir!

Que a nós juntos como agora

Não mais há de alumiar

Este sol, que vês brilhar.


A pátria nos tira o mestre

É — nos preciso ceder;

Mas nos não proíbe o pranto,

Nem no-lo pode tolher;

Que então seria matar

Fé de amigo os sentimentos

E aumentar-nos os tormentos!...


Ginásio Baiano, 14 de julho de 1861.



5. AO DIA SETE DE SETEMBRO


Mancebos, que sois a esperança

Do majestoso Brasil;

Mancebos, que inda tão tenros

Sabeis de louro gentil

Adornar o pátrio dia,

Nosso dia senhoril!


Eis que assomou sobre os montes

Além, sobre a antiga serra,

Entre mil nuvens de rosa,

O dia de nossa terra;

Aquele que para a Pátria

Milhões de glórias encerra.


Foi hoje que o Lusitano,

Que o filho de além do mar,

Despertou com forte brado

A Pátria que era a sonhar,

Que nem sequer escutava

A liberdade a expirar.


E o brado: — "Livres ou mortos"

Lá nos bosques retumbou;

E mais contente o Ipiranga

As suas águas rolou;

E o eco d'alta montanha

Todo o Brasil ecoou.


E as montanhas lá do Sul,

E as montanhas lá do Norte,

Repetiram em seus cumes:

Sempre ser livres ou morte...

E lá na luta renhida

Cada qual luta mais forte.


Sim, nos combates que, ousados,

Travaram cem contra mil,

O mancebo que nascera

Sob este azul céu de anil,

Forte como um Bonaparte,

Batia o forte fuzil.


E cada qual no combate

Ao ribombar do canhão

Queria à custa da vida

Dar à Pátria salvação,

Vingar a terra natal

D'aviltante servidão.


Eia, pois, flores da Pátria,

Esp'rançosa mocidade!

Que os Andradas e os Machados

Do alto da Eternidade

Contentes vos abençoam

No dia da Liberdade.


Bahia, Ginásio Baiano, 7 de setembro de 1861.


6.  SONETOS


Aos anos do meu prezado diretor.

Mancebos! De mil louros triunfantes

Adornai o Moisés da mocidade,

O Anjo que nos guia da verdade


Pelos doces caminhos sempre ovantes.

Coroai de grinaldas verdejantes

Quem rompeu para a Pátria nova idade,

Guiando pelas leis sãs da amizade


Os moços do progresso sempre amantes.

Vê, Brasil, este filho que o teu nome

Sobre o mapa dos povos ilustrados

Descreve qual o forte de Vendôme.


Conhece que os Andradas e os Machados,

Que inda vivem nas asas do renome

Não morrem nestes céus abençoados;


...................


Mestre, Mestre querido, Pai de Amor,

As glórias que conquistas co'a razão,

Enchendo de prazer teu coração

T'atraem grandes bençãos do Senhor!


Os teus louros têm mais vivo fulgor,

Que os ganhos ao ribombo do canhão;

Que os de um Aníbal, d'um Napoleão,

Alcançados das mortes entre o horror.


Sim! Que os louros terríveis que Mavorte

Ao soldado concede em dura guerra,

Todos murcha a idéia só da morte!


Mas nos teus vero mérito se encerra,

Que não cede do tempo ao braço forte,

E alcançam justo prêmio além da terra!...


1861



PARTIDA DO MEU MESTRE DO CORAÇÃO


O Exmo. Sr. D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará.


Oh! Que silêncio expressivo!

Que triste melancolia!

Tudo nos diz dores;

Tudo nos diz agonia!

Chora terno o caro mestre,

O discip'lo também chora;

Que todos sofrem agora!


Apenas ouço soluços

Arrancados dentre prantos!

Tristes ais, filhos da dor,

Partidos de peitos tantos!

Frases puras que bem dizem

O sofrer, as aflições,

Que pungem tais corações!...


Mas por que todos conjuntos,

Estais assim a chorar?

Que motivo vossas almas

Pôde assim sensibilizar?

Que motivo vossos peitos

Faz assim 'starem sofrendo;

Tantas dores padecendo?


Ai! É que a ausência penosa

Já pouco tarda a chegar!

É que impiedoso o destino

Dos olhos vai nos roubar

O mestre, o mestre querido,

Que nos sabia ensinar

A nosso Deus adorar!


Ai! É que dentro em breve

(Talvez p'ra sempre, oh! meu Deus!)

Não possamos mais ouvir

Os santos conselhos seus!

Ele tão bom nos guiava

A salvo por entre a lida

Desta tão custosa vida!


Chora, bem triste, Ginásio,

Derrama pranto sem fim!

Ah! Chora que isto consola

A quem sofre dor assim!.

Chora, que não mais verás

Unido alegre contigo

O teu mestre, o teu amigo!


Chora, chora, meu Ginásio.

Eis a hora de partir,

D'hora em diante saudades

Cruéis vos hão de ferir!

Que a nós juntos como agora

Não mais há de alumiar

Este sol, que vês brilhar.


A pátria nos tira o mestre

É — nos preciso ceder;

Mas nos não proíbe o pranto,

Nem no-lo pode tolher;

Que então seria matar

Fé de amigo os sentimentos

E aumentar-nos os tormentos!...


Ginásio Baiano, 14 de julho de 1861.


 Castro Alves


7 Adormecida

Castro Alves



Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière

La croix de son collier repose dans sa main,

Comme pour témaigner qu'elle a fait sa prière.

Et qu'elle va la faire en s'éveiliant demain.

A. DE MUSSET


Uma noite eu me lembro... Ela dormia

Numa rede encostada molemente...

Quase aberto o roupão... solto o cabelo

E o pé descalço do tapete rente.


'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste

Exalavam as silvas da campina...

E ao longe, num pedaço do horizonte

Via-se a noite plácida e divina.


De um jasmineiro os galhos encurvados,

Indiscretos entravam pela sala,

E de leve oscilando ao tom das auras

Iam na face trêmulos — beijá-la.


Era um quadro celeste!... A cada afago

Mesmo em sonhos a moça estremecia...

Quando ela serenava... a flor beijava-a...

Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...


Dir-se-ia que naquele doce instante

Brincavam duas cândidas crianças...

A brisa, que agitava as folhas verdes,

Fazia-lhe ondear as negras tranças!


E o ramo ora chegava, ora afastava-se...

Mas quando a via despeitada a meio,

P'ra não zangá-la... sacudia alegre

Uma chuva de pétalas no seio...


Eu, fitando esta cena, repetia

Naquela noite lânguida e sentida:

"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!

"Virgem! tu és a flor da minha vida!..."



São Paulo, Novembro de 1868

Castro Alves


SONETOS

Castro Alves


Aos anos do meu prezado diretor.


Mancebos! De mil louros triunfantes

Adornai o Moisés da mocidade,

O Anjo que nos guia da verdade

Pelos doces caminhos sempre ovantes.


Coroai de grinaldas verdejantes

Quem rompeu para a Pátria nova idade,

Guiando pelas leis sãs da amizade

Os moços do progresso sempre amantes.


Vê, Brasil, este filho que o teu nome

Sobre o mapa dos povos ilustrados

Descreve qual o forte de Vendôme.


Conhece que os Andradas e os Machados,

Que inda vivem nas asas do renome

Não morrem nestes céus abençoados;


...................


Mestre, Mestre querido, Pai de Amor,

As glórias que conquistas co'a razão,

Enchendo de prazer teu coração

T'atraem grandes bençãos do Senhor!


Os teus louros têm mais vivo fulgor,

Que os ganhos ao ribombo do canhão;

Que os de um Aníbal, d'um Napoleão,

Alcançados das mortes entre o horror.


Sim! Que os louros terríveis que Mavorte

Ao soldado concede em dura guerra,

Todos murcha a idéia só da morte!


Mas nos teus vero mérito se encerra,

Que não cede do tempo ao braço forte,

E alcançam justo prêmio além da terra!...


1861


Poemas de Castro Alves - Poesias Colegiais


Veja também

Poesias Colegiais, de Castro Alves. No colégio, no lar por seu pai, iria encontrar uma atmosfera literária, produzida pelos oiteiros, ou saraus, festas de arte, música, poesia, declamação de versos. Aos 17 anos fez as primeiras poesias. (Wikipedia)

Sugestões
  • poemas para apresentar na aula de portugues
  • poemas para aula de literatura
  • poemas para sala de aula
  • poemas para trabalhar em sala de aula 
  • poesia para aula de portugues

5 Poemas de Cláudio Manuel da Costa

 5 Poemas de Cláudio Manoel da Costa 

1. CANTO HERÓICO


Ao Ilmo. e Exmo. Sr. D. Antônio de Noronha, na ocasião em que os movimentos da Guerra do Sul o obrigaram a marchar para o Rio de janeiro com as tropas de Minas Gerais.

Jam nunc minaci murmure cornuum

Perstringis aures, jam litui strepunt

Jam fulgor armorum fugaces

Terret equos, equitumque vultus.

HORÁCIO. lib. 2, od. 1a.


Marte feroz, que com semblante irado

Influís nos mortais a dura guerra,

Sofre que a teus ouvidos chegue o brado

Da minha aflita, e magoada Terra:

A paz tranqüila e o sereno estado

Do nosso bem por ti já se desterra;

Por ti eu vejo que a discórdia crua

Sacode as serpes da madeixa sua.


2

Busca a ardente fornalha o ferro que antes

De útil arado ao lavrador servia;

Punhais agudos, lanças penetrantes

Levam na mão, que os rege a morte fria:

Ouvem-se as vozes dos clarins vagantes,

Soa da caixa a fúnebre harmonia,

Guerra, guerra, publica o eco horrendo,

Que os montes fere, os vales vai rompendo.


3

Deixa da amada esposa o casto leito

O saudoso pai, que o filho adora,

E do amor e da honra ao vário efeito,

Desperta a um tempo, e ao mesmo tempo chora;

Fugi, mortais, que o palpitante peito

Treme e se gela; a Fama vencedora

De longe vos acena, e vos convida;

Mas de sangue e de pó será tingida.


4

Céus, e como inda anima a idéia infame

Um concelho tão vil? Que influxo impuro

Me arrebata, e me obriga a que vos chame

Ao letargo infeliz de um veio escuro?

A glória ilustre, a glória vos inflame

De sustentar de vossa Pátria o muro,

De ver a vossos pés o orgulho fero,

Com que vos ameaça o ferro ibero.


5

Noronha é que vos guia. Ele na frente

Dos Reais Esquadrões empunha a espada,

Aquela espada que inda fuma quente

Do sangue hispano, em que já foi banhada;

Dos preclaros Avós, quando pendente,

Se viu da Fama na imortal morada;

Ela inspira neste Herói o exemplo,

Que bem desempenhado hoje contemplo.


6

Se buscais da Vitória um fausto agoiro,

Eu vo-lo posso dar: entrai comigo

A registar o Templo; vede o Loiro

De tanto egrégio resplandor antigo;

Aquele respeitável busto de oiro

Guarda o Primeiro Pedro, o Rei amigo;

O Quinto Afonso os seus serviços mede

No Condado feliz de Cantanhede.


7

Derivando-se a rama esclarecida

Dos ilustres, esplêndidos Menezes,

Por um Jorge, um João, e outros que a vida

Perderam entre os bélicos arneses,

Vede no grande Antônio enriquecida

De mil troféus a glória; este que as vezes

Sustenta do Primeiro, em prêmio prova,

Por mão do Rei Felipe, a mercê nova.


8

Passa o título a Antônio, e já respira

Neste Conde imortal a glória rara

Do excelso Marquesado; o Rei admira

Crescer a estirpe majestosa e clara:

De ramo em ramo se dilata e gira

O régio adorno, que a Fortuna ampara;

Grandes são todos, e a maior grandeza

É das virtudes a feliz nobreza.


9

Menezes e Noronhas vêm ligados

Em laço ilustre, e de mil Reis a glória

Se vê reproduzir nestes traslados,

Que os fastos enchem já da Lusa História:

Nas bélicas empresas aprovados,

Oh! e quanto distintos na memória

Eu os encontro, eu os adoro, e vejo,

Se busco o Ganges, se demando o Tejo!


10

África o diga em dessolados rumes?

De frios ossos alvejando as praias;

Digam-no de Ásia aos cortadores gumes,

Rasas no campo, as Legiões cambaias.

Semideuses da terra e dignos Numes

Os viu o Tejo nas frondosas raias;

Em Montes Claros e Elvas inda soa

O clarim, que as vitórias apregoa.


11

Que parte o mundo em seus limites conta,

Que de tantos Heróis não honre, e guarde

As preclaras ações? Febo as apontar

Onde nasce, onde morre, e onde mais arde.

Se a um e a outro hemisfério se remonta

A glória sua, a nós se não retarde

A ventura de vermos neste Estado

Por um Noronha o nosso bem firmado.


12

Antônio, o grande Antônio é quem segura

Das Pátrias Minas o feliz distrito,

Por ele a mão da próvida Ventura

Tem o nosso prazer em bronze escrito:

Dos férteis campos, que talar procura

O soberbo espanhol, eu já medito

Que livres do temor, do pranto enxutos,

Nós passaremos a colher os frutos.


13

Então de palmas a coberta estrada

Aos seus triunfos abrirá caminho,

Mil vivas entoando a Esquadra armada,

Desde o Rio da Prata a Doiro e Minho.

Pender veremos da luzenta espada

Ricos despojos, que o curvado Pinho

Farão gemer; veremos como torna

Cheio de loiros, de que a testa adorna.


14

Parte, valente Herói, parte, e a teu mando

Ajunta um corpo de rendidos peitos,

Que então são dignos de seguir-te, quando

Amam da glória os imortais respeitos;

Teu nome, o vôo sobre a Fama dando,

Passe do mundo os âmbitos estreitos;

E além da meta que o Tebano assina

Firma o brasão da Lusitana Quina.


15

Cândida nuvem desde os Céus desata

A abundância, o prazer, e a alegria;

Sereno o aspecto da Fortuna ingrata,

Longe de nós Remnúsia se desvia.

Não é engano, que a ilusão dilata

Na fecunda, ociosa fantesia;

Eu o vejo, eu o sinto, e já se apressa

A feliz hora, e a estação começa.


16

Correi de leite, e mel, ó pátrios rios,

E abri dos seios o metal guardado;

Os borbotões de prata, e de oiro os fios

Saiam do Luso a enriquecer o estado;

Intratáveis penedos, montes frios,

Deixai ver as entranhas, onde o Fado

Reserva pela mão do Herói mais nobre

Dar ao mundo os tesoiros que inda encobre.


17

Verdes, negros Tritões tecendo a amarra

Prendam no Tejo as carregadas Frotas

Que vêm buscando a Lusitana Terra,

Lá desde o seio das regiões remotas;

O Hispano Leão curvando a garra

Trema de espanto, e nas entranhas rotas

Sinta o furor da macilenta inveja,

Que o rói, e morde, e em devorar forceja.


18

Mas eu, que me dilato ou me detenho

Nas imagens de auspício tão ditoso,

Se a profética luz em desempenho

Transpira já no quadro luminoso?

Já desde o Porto o desatado Lenho?

Ao triunfante Herói recebe ansioso,

Já pouco a pouco o vento, abrindo as velas,

Foge do Pátrio Rio às praias belas.


19

Parte, valente Herói, mas deixa entanto

Que te chore o País deserto e triste!

Quanto é pesada a tua ausência, e quanto

Ela debalde a tanta dor resiste!

Permite ao menos que o saudoso pranto

Te acompanhe e te siga, e se já viste

De ũa muda eloqüência o ardente efeito,

Rende à ternura o resoluto peito.


28

Mas desde o Hebro desatar o Pinho,

Qual fero Jarba a disputar Cartago;

Do parente, do amigo e do vizinho

Tentar o golpe e fulminar o estrago;

Fazer do Elísio ao imortal caminho

Tantas almas de Heróis cruzar o lago

Do frio Lete... ah! que o teu nome eu vejo

Andar aos netos com vergonha, e pejo!


29

Se a impulsos de um furor corre inimigo

Teu braço a provocar-nos, eu te juro

Que vejas renascer o esforço antigo

Que tantas vezes te atacou seguro:

Traze em memória o mísero castigo

Daquele pacto que te achou perjuro,

Vê se os trezentos Fábios inda alenta

A série augusta dos Varões quarenta.


30

Lembre-te que de todo enfraquecido

O Reino estava, e qual Anteu gigante

Com mais forças pulou do chão erguido

A restaurar o cetro vacilante:

Lembre-te que entre os poucos do partido

Nenhum tão digno de que a Fama o cante

Como um Pedro Menezes. Tens presente

No grande Antônio o sucessor valente.


2. ROMANCES - L I S E


ROMANCE I



Pescadores do Mondego,

Que girais por essa praia,

Se vós enganais o peixe,

Também Lise vos engana.


Vós ambos sois pescadores;

Mas com diferença tanta,

Vós ao peixe armais com redes,

Ela co'olhos vos arma.


Vós rompeis o mar undoso:

Para assegurar a caça;

Ela aqui no porto espera,

Para lograr a filada.


Vós dissimulais o enredo,

Fingindo no anzol a traça;

Ela vos expõe patentes

As redes, com que vos mata.


Vós perdeis a noite, e dia

Em contínua vigilância;

Ela em um só breve instante

Consegue a presa mais alta.


Guardai-vos, pois, pescadores,

Dos olhos dessa tirana;

Que para troféus de Lise

Despojos de Alcemo bastam.


Enquanto as ondas ligeiras

Desta corrente tão clara

Inundarem mansamente

Estes álamos, que banham;


Eu espero, que a memória

O conserve nestas águas,

Por padrão dos desenganos,

Por triunfo de uma ingrata.


E na frondosa ribeira

Deste rio, triste a alma

Girará sempre avisando,

Quem lhe soube ser tão falsa.


Cláudio Manuel da Costa


3. ALTÉIA - ROMANCE III

Aquele pastor amante,

Que nas úmidas ribeiras

Deste cristalino rio

Guiava as brancas ovelhas;


Aquele, que muitas vezes

Afinando a doce avena,

Parou as ligeiras águas,

Moveu as bárbaras penhas;


Sobre uma rocha sentado

Caladamente se queixa:

Que para formar as vozes,

Teme, que o ar as perceba.


Os olhos levanta, e busca

Desde o tosco assento aquela

Distancia, aonde, discorro,

Que tem a origem da pena:


E depois que esmorecidos

Da dor os olhos, na imensa

Explicação do tormento,

Sufocada a luz, se cegam;


Só às lágrimas recorre,

Deixando-se ouvir apenas

Daquelas árvores mudas,

Daquela mimosa relva!


Com torpe aborrecimento

A companhia despreza

Dos pastores, e das ninfas;

Nada quer; tudo o molesta.


Erguido sabre o penhasco

Já vê, se é grande a eminência:

Por que busque o fim da vida,

Na violência de uma queda.


Já louco se precipita;

E já se suspende: a mesma

Apetência do tormento

Maior tormento lhe ordena.


Pastores, vêde a Daliso;

Vede o estado qual seja

De um pastor, que em outro tempo

Glória destes montes era:


Vêde, como sem cuidado

Pastar pelos montes deixa

As ovelhas oferecidas

As iras de qualquer fera.


Vêde, como desta rama,

Que fúnebre está, suspensa

Deixou a lira, que há pouco,

Pulsava pela floresta.


Vêde, como já não gosta

Da barra, dança, e carreira;

E ao pastoril exercício

De todo já se rebela.


Segundo o volto, que neste

Rústico penedo ostenta,

Cuido, que o fizeram louco

Desprezos da bela Altéia.


Cláudio Manuel da Costa



4. ANTANDRA - ROMANCE II


Pastora do branco arminho,

Não me sejas tão ingrata:

Que quem veste de inocente,

Não se emprega em matar almas.


Deixa o gado, que conduzes;

Não o guies à montanha:

Porque em poder de uma fera,

Não pode haver segurança.


Mas ah! Que o teu privilégio,

É louco, quem não repara:

Pois suavizando o martírio,

Obrigas mais, do que matas.


Eu fugirei; eu, pastora,

Tomarei somente as armas;

E hão de conspirar comigo

Todo o campo, toda a praia.


Tenras ovelhas,

Fugi de Antandra;

Que é flor fingida,

Que áspides cria, que venenos guarda.



Cláudio Manoel da Costa



5. A MORTE DE SALÍCIO


EPICÉDIO II


Espírito imortal, tu que rasgando

Essa esfera de luzes, vais pisando

Do fresco Elísio a região bendita,

Se nesses campos, onde a glória habita,

Centro do gosto, do prazer estância,

Entrada se permite à mortal ânsia

De uma dor, de um suspiro descontente,

Se lá relíquia alguma se consente

Desta cansada, humana desventura,

Não te ofendas, que a vítima tão pura,

Que em meus ternos soluços te ofereço,

Busque seguir-te, por lograr o preço

Daquela fé, que há muito consagrada

Nas aras da amizade foi jurada.


Bem sabes, que o suavíssimo perfume,

Que arder pode do amor no casto lume,

Os suores não são deste terreno,

Que odorífero sempre, e sempre ameno,

Em coalhadas porções Chipre desata:

Mais que os tesouros, que feliz recata

A arábica região, amor estima

Os incensos, que a fé, que a dor anima,

Abrasados no fogo da lembrança.

Esta pois a discreta segurança,

Com que chega meu peito saudoso,

A acompanhar teu passo venturoso,


Oh sempre suspirado, sempre belo,

Espírito feliz: a meu desvelo

Não negues, eu te rogo, que constante

Viva a teu lado sombra vigilante.


Inda que estejas de esplendor cercada,

Alma feliz, na lúcida morada,

Que na pompa dos raios luminosa

Pises aquela esfera venturosa,

Que a teu merecimento o Céu destina;

Nada impede, que a chama peregrina

De uma saudade aflita, e descontente,

Te assista acompanhando juntamente.

Antes razão será, que debuxada

Em meu tormento aquela flor prostrada,

Sol em teus resplendores te eternizes,

E Clície em minha mágoa me divises;

Entre raios crescendo, entre lamentos,

Em mim a dor, em ti os luzimentos.


Se porém a infestar da Elísia esfera

A contínua, brilhante primavera

Chegar só pode o lastimoso rosto

Deste meu triste, fúnebre desgosto,

Eu desisto do empenho, em que deliro;

E as asas encurtando a meu suspiro,

Já não consinto, que seu vôo ardente

A acompanhar-te suba diligente:

Antes no mesmo horror, na sombra escura

Da minha inconsolável desventura

Eu quero lastimar meu fado tanto,

Que sufocado em urnas de meu pranto,

A tão funesto, líquido dispêndio,

A chama apague deste ardente incêndio.


Indigno sacrifício de uma pena,

Que chega a perturbar a paz serena

De umas almas, que em campos de alegria

Gozam perpétua luz, perpétuo dia;

Que adorando a concórdia, desconhecem

Os sustos, que da inveja os braços tecem;

Que ignoram o rigor do frio inverno;

E que em brando concerto, em jogo alterno

Gozam toda a suavíssima carreira

De uma sorte risonha, e lisonjeira.


Ali, entre os favônios mais suaves,

A consonância ofenderei das aves,

Que arrebatando alegres os ouvidos,

Discorrem entre os círculos luzidos

De toda a vegetante, amena estância.

Ali pois as memórias de minha ânsia

Não entrarão, Salício: que não quero

Ser contigo tão bárbaro, e tão fero,

Que um bem, em cuja posse estás ditoso,

Triste magoe, infeste lastimoso.


Cá vivera comigo a minha pena,

Penhor inextinguível, que me ordena

A sempre viva, e imortal lembrança.

Ela me está propondo na vingança

De meu fado inflexível, ó Salício,

Aquele infausto, trágico exercício,

Que os humanos progressos acompanha.

Quem cuidara, que fosse tão estranha,

Tão pérfida, tão ímpia a força sua,

Que maltratar pudesse a idade tua,

Adornada não só daquele raio,

Que anima a flor, que se produz em maio;

Mas inda de frutíferos abonos,

Que antecipa a cultura dos outonos!


Cinco lustros o Sol tinha dourado

(Breves lustros enfim, Salício amado),

Quando o fio dos anos encolhendo,

Foi Átropos a teia desfazendo:

Um golpe, e outro golpe preparava:

Para empregá-lo a força lhe faltava;

Que mil vezes a mão, ou de respeito,

De mágoa, ou de temor, não pôs o efeito.

Desatou finalmente o peregrino


Fio, que já tecera. Ah se ao destino

Pudera embaraçar nossa piedade!

Não te glories, trágica deidade,

De um triunfo, que levas tão precioso:

Desar é de teu braço indecoroso;

Que inda que a fúria tua o tem roubado,

A nossa dor o guarda restaurado.


Vive entre nós ainda na memória,

A que ele nos deixou, eterna glória;

Dispêndios preciosos de um engenho,

Ou já da natureza desempenho,

Ou para a nossa dor só concedido.

Salício, o pastor nosso, tão querido,

Prodígio foi no raro do talento,

Sobre todo o mortal merecimento;

E prodígio também com ele agora

Se faz a mágoa, que o lastima e chora.


A lutuosa vítima do pranto

Melhor, que o imarcescível amaranto,

Te cerca, ó alma grande, a urna triste;

O nosso sentimento aqui te assiste,

Em nênias entoando magoadas

Hinos saudosos, e canções pesadas.


Quiséramos na campa, que te cobre,

Bem que o tormento ainda mais se dobre,

Gravar um epitáfio, que declare,

Quem o túmulo esconde; e bem que apare

Qualquer engenho a pena, em nada atina.

Vive outra vez: das cinzas da ruína

Ressuscita, ó Salício; dita; escreve;

Seja o epitáfio teu: a cifra breve

Mostrará no discreto, e no polido,

Que é Salício, o que aqui vive escondido


Cláudio Manuel da Costa

5 Poemas de Cláudio Manuel da Costa


Veja também

Poesias e poemas para sala de aula: Português, Geografia, Sociologia, Artes, História e outras. Sobre diversos temas como saudade, carnaval, amor, etc. Sugeridas para trabalhar em sala de aula do ensino fundamental e ensino médio.


Cláudio Manuel da Costa escritor brasileiro que, segundo o site Wikipedia, destacou-se pela sua obra poética e pelo seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Foi também advogado de prestígio, fazendeiro abastado, cidadão ilustre, pensador de mente aberta e amigo do Aleijadinho, a quem teria possibilitado o acesso às bibliotecas clandestinas que seriam mais tarde apreendidas aos Inconfidentes

10 Poemas de Fagundes Varella: Poeta do Romantismo Brasileiro

10 Poemas de Fagundes Varella: Poeta do Romantismo Brasileiro 



1. VIDA DE FLOR


Por que vergas-me a fronte sobre a terra?

Diz a flor da colina ao manso vento,

Se apenas às manhãs o doce orvalho

Hei gozado um momento?


Tímida ainda, nas folhagens verdes

Abro a corola à quietação das noites,

Ergo-me bela, me rebaixas triste

Com teus feros açoites!


Oh! deixa-me crescer, lançar perfumes,

Vicejar das estrelas à magia,

Que minha vida pálida se encerra

No espaço de um só dia!


Mas o vento agitava sem piedade

A fronte virgem da cheirosa flor,

Que pouco a pouco se tingia, triste,

De mórbido palor.


Não vês, oh brisa? lacerada, murcha,

Tão cedo ainda vou pendendo ao chão,

E em breve tempo esfolharei já morta

Sem chegar ao verão?


Tem piedade de mim! deixa-me ao menos

Desfrutar um momento de prazer,

Pois que é meu fado despontar na aurora

E ao crepúsculo morrer!...


Brutal amante não lhe ouviu as queixas,

Nem às suas dores atenção prestou,

E a flor mimosa, retraindo as pétalas,

Na tige se inclinou.


Surgiu na aurora, não chegou à tarde,

Teve um momento de existência só!

A noite veio, procurou por ela,

Mas a encontrou no pó.


Ouviste, oh virgem, a legenda triste

Da flor do outeiro e seu funesto fim?

Irmã das flores à mulher, às vezes

Também sucede assim.


Poema Vida de Flor de Fagundes Varella


Fagundes Varella


2. DEIXA-ME!


Quando cansado da vigília insana

Declino a fronte num dormir profundo,

Por que teu nome vem ferir-me o ouvido,

Lembrar-me o tempo que passei no mundo?


Por que teu vulto se levanta airoso,

Tremente em ânsias de volúpia infinda?

E as formas nuas, e ofegante o seio,

No meu retiro vens tentar-me ainda?


Por que me falas de venturas longas,

Por que me apontas um porvir de amores?

E o lume pedes à fogueira extinta,

Doces perfumes a polutas flores?


Não basta ainda essa existência escura,

Página treda que a teus pés compus?

Nem essas fundas, perenais angústias,

Dias sem crenças e serões sem luz?


Não basta o quadro de meus verdes anos

Manchado e roto, abandonado ao pó?

Nem este exílio, do rumor no centro,

Onde pranteio desprezado e só?


Ah! não me lembres do passado as cenas,

Nem essa jura desprendida a esmo!

Guardaste a tua? a quantos outros, dize,

A quantos outros não fizeste o mesmo? 


A quantos outros, inda os lábios quentes

De ardentes beijos que eu te dera então,

Não apertaste no vazio seio

Entre promessas de eternal paixão?


Oh! fui um doido que segui teus passos,

Que dei-te em versos de beleza a palma;

Mas tudo foi-se, e esse passado negro

Por que sem pena me despertas n’alma?


Deixa-me agora repousar tranqüilo,

Deixa-me agora dormitar em paz,

E com teus risos de infernal encanto

Em meu retiro não me tentes mais! 


Deixa-me! Fagundes Varella.

Fagundes Varella


3. A MULHER

(A C...)



A mulher sem amor é como o inverno,

Como a luz das antélias no deserto,

Como espinheiro de isoladas fragas,

Como das ondas o caminho incerto.


A mulher sem amor é mancenilha

Das ermas plagas sobre o chão crescida,

Basta-lhe à sombra repousar um’hora

Que seu veneno nos corrompe a vida.


De eivado seio no profundo abismo

Paixões repousam num sudário eterno...

Não há canto nem flor, não há perfumes,

A mulher sem amor é como o inverno.


Su’alma é um alaúde desmontado

Onde embalde o cantor procura um hino;

Flor sem aromas, sensitiva morta,

Batel nas ondas a vagar sem tino.


Mas, se um raio do sol tremendo deixa

Do céu nublado a condensada treva,

A mulher amorosa é mais que um anjo,

É um sopro de Deus que tudo eleva!


Como o árabe ardente e sequioso

Que a tenda deixa pela noite escura

E vai no seio de orvalhado lírio

Lamber a medo a divinal frescura,


O poeta a venera no silêncio,

Bebe o pranto celeste que ela chora,

Ouve-lhe os cantos, lhe perfuma a vida...

— A mulher amorosa é como a aurora.



Poemas

Fagundes Varela


4. O VIZIR


- Não derribes meus cedros! murmurava

O gênio da floresta aparecendo

Adiante de um vizir, senão eu juro

Punir-te rijamente! E no entanto

O vizir derribou a santa selva!

Alguns anos depois foi condenado

Ao cutelo do algoz. Quando encostava

A cabeça febril no duro cepo,

Recuou aterrado: - “Eternos deuses!

Este cepo é de cedro!” E sobre a terra

A cabeça rolou banhada em sangue! 


Fagundes Vare


5. TRISTEZA


Eu amo a noite com seu manto escuro

De tristes goivos coroada a fronte

Amo a neblina que pairando ondeia

Sobre o fastígio de elevado monte.


Amo nas plantas, que na tumba crescem,

De errante brisa o funeral cicio:

Porque minh’alma, como a sombra, é triste,

Porque meu seio é de ilusões vazio.


Amo a desoras sob um céu de chumbo,

No cemitério de sombria serra,

O fogo-fátuo que a tremer doideja

Das sepulturas na revolta terra.

Amo ao silêncio do ervaçal partido

De ave noturna o funerário pio,

Porque minh’alma, como a noite, é triste,

Porque meu seio é de ilusões vazio.


Amo do templo, nas soberbas naves,

De tristes salmos o troar profundo;

Amo a torrente que na rocha espuma

E vai do abismo repousar no fundo.


Amo a tormenta, o perpassar dos ventos,

A voz da morte no fatal parcel,

Porque minh’alma só traduz tristeza,

Porque meu seio se abrevou de fel.


Amo o corisco que deixando a nuvem

O cedro parte da montanha, erguido,

Amo do sino, que por morto soa,

O triste dobre na amplidão perdido.


Amo na vida de miséria e lodo,

Das desventuras o maldito seio,

Porque minh’alma se manchou de escárnios,

Porque meu seio se cobriu de gelo.


Amo o furor do vendaval que ruge,

Das asas negras sacudindo o estrago;

Amo as metralhas, o bulcão de fumo,

De corvo as tribos em sangrento lago.


Amo do nauta o doloroso grito

Em frágil prancha sobre mar de horrores,

Porque meu seio se tornou de pedra,

Porque minha’alma descorou de dores.


O céu de anil, a viração fagueira,

O lago azul que os passarinhos beijam,

A pobre choça do pastor no vale,

Chorosas flores que ao sertão vicejam,


A paz, o amor, a quietação e o riso

A meus olhares não têm mais encanto,

Porque minh’alma se despiu de crenças,

E do sarcasmo se embuçou no manto

Fagundes Varella

Poemas


6. ELEGIA


A noite era bela - dormente no espaço

A lua soltava seus pálidos lumes;

Das flores fugindo, corria lasciva

A brisa embebida de moles perfumes.


Do ermo os insetos zumbiam na relva,

As plantas tremiam de orvalho banhadas,

E aos bandos voavam ligeiras falenas

Nas folhas batendo com as asas douradas.


O túrbido manto das névoas errantes

Pairava indolente no topo da serra;

E aos astros - e às nuvens perfumes - sussurros,

Suspiros e cantos partiam da terra.


Nós éramos jovens - ardentes e sós,

Ao lado um do outro no vasto salão;

E as brisas e a noite nos vinham no ouvido

Cantar os mistérios de infinda paixão!


Nós éramos jovens - e a luz de seus olhos

Brilhava incendida de eternos desejos, 

E a sombra indiscreta do níveo corpinho

Sulcava-lhe os seios em brandos arquejos!


Nós éramos jovens - e as balsas floridas

O espaço inundavam - de quentes perfumes,

E o vento chorava nas tílias do parque,

E a lua soltava seus tépidos lumes!...


Ah! mísero aquele que as sendas do mundo

Trilhou sem o aroma de pálida flor,

E à tumba declina, na aurora dos sonhos,

O lábio inda virgem dos beijos de amor!


Não são dos invernos as frias geadas,

Nem longas jornadas que os anos apontam.

O tempo descora nos risos e prantos,

E os dias do homem por gozos se contam.


Assim nessa noite de mudas venturas,

De louros eternos minh’alma enastrei;

Que importa-me agora martírios e dores,

Se outrora dos sonhos a taça esgotei?


Ah! lembra-me ainda! - nem um candelabro

Lançava ao recinto seu brando clarão,

Apenas os raios da pálida lua

Transpondo as janelas batiam no chão. 


Vestida de branco - nas cismas perdida,

Seu mórbido rosto pousava em meu seio,

E o aroma celeste das negras madeixas

Minh’alma inundava de férvido anseio.


Nem uma palavra seus lábios queridos

Nos doces espasmos diziam-me então:

Que valem palavras, quando ouve-se o peito

E as vidas se fundem no ardor da paixão?


Oh! céus! eram mundos... ai! mais do que mundos

Que a mente invadiam de etéreo fulgor!

Poemas divinos - por Deus inspirados,

E a furto contados em beijos de amor!


No fim do seu giro, da noite a princesa

Deixou-nos unidos em brando sonhar;

Correram as horas - e a luz da alvorada

Em juras infindas nos veio encontrar!


Não são dos invernos as frias geadas,

Nem longas jornadas que os anos apontam...

O tempo descora nos risos e prantos, 

E os dias do homem por dores se contam!


Ligeira... essa noite de infindas venturas

Somente em minh’alma lembranças deixou...

Três meses passaram, e o sino do templo

À reza dos mortos os homens chamou!


Três meses passaram - e um lívido corpo

Jazia dos círios à luz funeral,

E, à sombra dos mirtos, o rude coveiro

Abria cantando seu leito afinal!...


Nós éramos jovens, e a senda terrestre

Trilhávamos juntos, de amor a sorrir,

E as flores e os ventos nos vinham no ouvido

Contar os arcanos de um longo porvir!


Nós éramos jovens, e as vidas e os seios,

O afeto prendera num cândido nó!

Foi ela a primeira que o laço quebrando

Caiu soluçando das campas no pó!


Não são dos invernos as frias geadas,

Nem longas jornadas que os anos apontam,

O tempo descora nos risos e prantos,

E os dias do homem por dores se contam!


- 1861. 


Fagundes Varella


7. ILUSÃO


Sinistro como um fúnebre segredo
Passa o vento do Norte murmurando
 Nos densos pinheirais;
A noite é fria e triste; solitário
Atravesso a cavalo a selva escura
 Entre sombras fatais.

À medida que avanço, os pensamentos
Borbulham-me no cérebro, ferventes,
 Como as ondas do mar,
E me arrastam consigo, alucinado,
À casa da formosa criatura
 De meu doido cismar. 

Latem os cães; as portas se franqueiam
Rangendo sobre os quícios; os criados
 Acordem pressurosos;
Subo ligeiro a longa escadaria,
Fazendo retinir minhas esporas
 Sobre os degraus lustrosos.

No seu vasto salão iluminado,
Suavemente repousando o seio
 Entre sedas e flores,
Toda de branco, engrinaldada a fronte,
Ela me espera, a linda soberana
 De meus santos amores.

Corro a seus braços trêmulo, incendido
De febre e de paixão... A noite é negra,
 Ruge o vento no mato;
Os pinheiros se inclinam, murmurando:
- Onde vai este pobre cavaleiro
 Com seu sonho insensato?.

Fagundes Varella

8. NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM!


Não te esqueças de mim, quando erradia
Perde-se a lua no sidéreo manto;
Quando a brisa estival roçar-te a fronte,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando escutares
Gemer a rola na floresta escura,
E a saudosa viola do tropeiro
Desfazer-se em gemido de tristura.

Quando a flor do sertão, aberta a medo,
Pejar os ermos de suave encanto,
Lembre-te os dias que passei contigo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando à tardinha
Se cobrirem de névoa as serranias,
E na torre alvejante o sacro bronze
Docemente soar nas freguesias!

Quando de noite, nos serões de inverno,
A voz soltares modulando um canto,
Lembre-te os versos que inspiraste ao bardo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando meus olhos
Do sudário no gelo se apagarem,
Quando as roxas perpétuas do finado
Junto à cruz de meu leito se embalarem.

Quando os anos de dor passado houverem,
E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma idéia a teu poeta,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Fagundes Varella


9. NAPOLEÃO


Sobre uma ilha isolada,
Por negros mares banhada,
Vive uma sombra exilada,
De prantos lavando o chão;
E esta sombra dolorida,
No frio manto envolvida,
Repete com voz sumida:
— Eu inda sou Napoleão.

Tremem convulsas as plagas
Bravias lutam as vagas,
Solta o vento horríveis pragas
Nos cendais da escuridão;
Mas nas torvas penedias
Entre fundas agonias,
Ela diz às ventanias:
— Eu inda sou Napoleão.

— E serei! do céu da glória,
Nem dos bronzes da memória,
Nem das páginas da história
Meus feitos se apagarão;
Passe a noite e as tempestades,
Venham remotas idades,
Caiam povos e cidades,
— Sempre serei Napoleão.

Da coluna de Vendôme,
O bronze, o tempo consome,
Porém não apaga o nome
Que tem por bronze a amplidão.
Apesar de infausto dia,
Da infâmia que tripudia,
Dos bretães a cobardia,
— Sempre serei Napoleão.

Nos vastos plainos do Egito,
Sobre Titãs de granito,
Eu tenho um poema escrito
Que deslumbra a solidão.
Das Ísis rasguei os véus,
Entre os altares fui deus,
Fiz povos escravos meus,
— Ah! inda sou Napoleão.

Desde onde o crescente brilha
Até onde o Sena trilha,
Tive o mundo por partilha
Tive imensa adoração;
E de um trono de fulgores
Fiz dos grandes — servidores,
Fiz dos pequenos — senhores,
— E sempre fui Napoleão.

Quando eu cortava os desertos,
Vinham-me os ventos incertos
De incenso e mirra cobertos
Lamber-me as plantas no chão;
As caravanas paravam,
E os romeiros que passavam
Às solidões perguntavam:
— É este o deus Napoleão?

E lá nas plagas fagueiras,
Onde as brisas forasteiras,
Entre selvas de palmeiras
Corre o sagrado Jordão,
O lago dizia ao prado,
O prado ao monte elevado,
O monte ao céu estrelado:
— Vistes passar Napoleão!

Dizei, auras do Ocidente,
Dizei, tufão inda quente
Do bafejo incandescente
Do não vencido esquadrão,
Como é ele? é belo, ousado?
Tem o rosto iluminado?
Tem o braço denodado?
— Sempre é grande Napoleão?

E as águias no céu corriam,
E os areais se volviam,
E horrendas feras bramiam
No imenso da solidão;
Mas as vozes do deserto
Se erguiam como um concerto
E vinham saudar-me perto:
— Tu és, senhor, Napoleão!

— Se sou! que Marengo o conte,
De Austerlitz o horizonte,
E aquela soberba ponte
Que transpus como o tufão!
E a minha vida de Ajácio,
E o meu sublime palácio,
E os pescadores do Lácio
Que só dizem — Napoleão!

Se o sou! que digam as plagas,
Onde do sangue nas vagas,
Coberta de enormes chagas
Dorme vil população;
Digam da Ásia as bandeiras,
Digam longas cordilheiras,
Que se abatiam, rasteiras,
Ao corcel de Napoleão!

Se o sou! diga Santa Helena
Onde a mais sublime cena
Fechou tranqüila e serena
Minha história de Titão,
Digam as ondas bravias,
Digam torvas penedias,
Onde as rijas ventanias
Vêm murmurar: — Napoleão.

E serei! do céu, da glória,
Nem dos bronzes da memória
Nem das páginas da história
Meus feitos se apagarão!
Assim na rocha isolada
Pelas espumas banhada,
Disse a sombra desterrada,
De prantos lavando o chão.

As névoas rolam nos céus,
Da noite escura nos véus
Soltam negros escarcéus
Rugidos de imprecação;
Mas das sombras a espessura
A face da onda escura,
O salgueiro que murmura
Tudo fala — Napoleão!


10. AURORA


Antes de erguer-se de seu leito de ouro,
O rei dos astros o Oriente inunda
 De sublime clarão;
Antes de as asas desprender no espaço,
A tempestade agita-se e fustiga
 O turbilhão dos euros.

As torrentes de idéias que se cruzam,
O pensamento eterno que se move
 No levante da vida,
São auras santas, arrebóis esplêndidos,
Que precedem à vinda triunfante
 De um sol imorredouro.

O murmurar profundo, enrouquecido,
Que do seio dos povos se levanta,
 Anuncia a tormenta;
Essa tormenta salutar e grande
Que o manto roçará, prenhe de fogo,
 Na face das nações.

Preparai-vos, ó turbas! Preparai-vos,
Rebatei vossos ferros e cadeias,
 Algozes e tiranos!
A hora se aproxima pouco a pouco,
E o dedo do Senhor já volve a folha
 Do livro do destino!

Grande há de ser o drama, a ação gigante,
Majestosa a lição! luzes e trevas
 Lutarão sobre os orbes!
O abismo soltará seus tredos roncos, 
E o frêmito dos mares agitados
 Se unirá aos das turbas.

Os reis convulsarão nos tronos frágeis,
Buscando embalde sustentar nas frontes
 As úmidas coroas...
Debalde!... o vendaval na fúria insana
Os levará com elas, envolvidos
 Num turbilhão de pó!

Vis, abatidos, o fidalgo e o rico
Sairão de seus paços vacilantes
 Nos podres alicerces...
E errantes sobre a terra irão chorando,
Mendigar um farrapo ao vagabundo,
 E um pedaço de pão!

Estranho povo surgirá da sombra
Terrível e feroz cobrindo os campos
 De cruentos horrores!
O palácio e a prisão irão por terra,
E um segundo dilúvio, então de sangue,
 O mundo lavará!

O sábio em seu retiro, estupefato,
Verá tombar a imagem da ciência,
 Fria estátua de argila,
E um pálido clarão dirá que é perto
O astro divinal que às turbas míseras
 Conduz a redenção!

Como aos dias primeiros do universo,
O globo se erguerá banhado em luzes,
 Reflexos de Deus;
E a raça humana sob um céu mais puro
Um hino insigne enviará, prostrada
 Aos pés do Onipotente!

Irmãos todos serão; todos felizes;
Iguais e belos, sem senhor nem peias,
 Nem tiranos e ferros!
O amor os unirá num laço estreito,
E o trânsito da vida uma romagem
 Se tornará celeste!

A hora se aproxima pouco a pouco;
O dedo do Senhor já volve a folha
 Do livro do destino!...
Ergue-se a tela do teatro imenso,
E o mistério infinito se desvenda
 Do drama do Calvário

 Fagundes Varella

11 AS SELVAS


Selvas do Novo Mundo, amplos zimbórios,
Mares de sombra e ondas de verdura,
Povo de Atlantes soberano e mudo
Em cujos mantos o tufão murmura.

Salve! minh’alma vos procura embalde,
Embalde triste vos estendo os braços...
Cercam-me o corpo rebatidos muros,
Prendem-me as plantas enredados laços!...

Pátria da liberdade! antros profundos!
Vastos palácios! eternais castelos!
Mandai-me os gênios das sombrias grutas
De meus grilhões espedaçar os elos!...

Ah! que eu não possa me esquivar dos homens,
Matar a febre que meu ser consome,
E entre alegrias me arrojar cantando
Nas secas folhas do sertão sem nome!

Ah! que eu não possa desprender aos ermos
O fogo ardente que meu crânio encerra,
Gastar os dias entre o espaço e Deus
Nas matas virgens da colúmbia terra!

Eu não detesto nem maldigo a vida,
Nem do despeito me remorde a chaga,
Mas ah! sou pobre, pequenino e débil
E sobre a estrada o viajor me esmaga!

Que faço triste no rumor das praças?
Que busco pasmo nos salões dourados?
Verme do lodo me desprezam todos,
O pobre e os grandes de esplendor cercados!

Fere-me os olhos o clarão do mundo,
Rasgam-me o seio prematuras dores,
E à mágoa insana que me enluta as noites,
Declino à campa na estação das flores.

E há tanto encanto nas florestas virgens,
Tanta beleza do sertão na sombra,
Tanta harmonia no correr do rio,
Tanta delícia na campestre alfombra...

Que inda pudera reviver de novo,
E entre venturas flutuar minh’alma,
Fanada planta que mendiga apenas
A noite, o orvalho, a viração e a calma! 

Fagundes Varella

10 Poemas de Fagundes Varella: Poeta do Romantismo Brasileiro


Veja também

Quem foi Fagundes Varella?


Fagundes Varella (São João Marcos, 17 de agosto de 1841 — Niterói, 18 de fevereiro de 1875) foi um poeta romantista brasileiro da 2ª Geração, patrono na Academia Brasileira de Letras. 

Poeta romântico, Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes da poesia brasileira, em seu tempo com obras de características marcantes para a literatura brasileira. 

20 Poemas de Machado de Assis | Literatura Clássica em Série

 20 Poemas da Série Machado de Assis: Literatura Clássica  

1. SINHÁ

 (Num álbum – 1862)

O teu nome é como o óleo derramado.

 SALOMÃO — Cântico dos Cânticos


Nem o perfume que espira

A flor, pela tarde amena,

Nem a nota que suspira

Canto de saudade e pena

Nas brandas cordas da lira;

Nem o murmúrio da veia

Que abriu sulco pelo chão

Entre margens de alva areia,

Onde se mira e recreia

Rosa fechada em botão;


Nem o arrulho enternecido

Das pombas, nem do arvoredo

Esse amoroso arruído

Quando escuta algum segredo

Pela brisa repetido;

Nem esta saudade pura

Do canto do sabiá

Escondido na espessura,

Nada respira doçura

Como o teu nome, Sinhá! 


Machado de Assis

Crisálidas


2. EMBIRRAÇÃO

(A Machado de Assis)


A balda alexandrina é poço imenso e fundo,

Onde poetas mil, flagelo deste mundo,

Patinham sem parar, chamando lá por mim.

Não morrerão, se um verso, estiradinho assim,

Da beira for do poço, extenso como ele é,

Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé

Que volte um afogado, à luz da mocidade,

A ver no mundo seco a seca realidade.


Por eles, e por mim, receio, caro amigo;

Permite o desabafo aqui, a sós contigo,

Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal;

Nem vence o positivo o frívolo ideal;

Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã,

E até da vã loucura a moda é prima-irmã:

Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus,

Do verso alexandrino há de livrar-nos Deus.


Deus quando abre ao poeta as portas desta vida,

Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;*

E o triste, se morreu, deixando mal escritas

Em verso alexandrino histórias infinitas,

Vai ter lá noutra vida insípido desterro,

Se Deus, por compaixão, não dá perdão ao erro;

Fechado em quarto escuro, à noite não tem luz,

E se é cá do meu gosto o guarda que o conduz,

Debalde, imerso em pranto, implora o livramento;

Não torna a ser, aqui, das Musas o tormento;

Castigo alexandrino, eterna solidão,

Terá lá no desterro, em prêmio da ilusão;

Verá queimar, à noite, as rosas esfolhadas,

Que a moda lhe ofertara, e trouxe tão cuidadas,

E ao pé do fogo intenso, ardendo em cruas dores,

Verá que versos tais são galhos, não dão flores;

Que, lendo-os a pedido, a criatura santa,

A paciência lhe foge, a fé se lhe quebranta,


Se vai dum verso ao fim; depois... treme... vacila...

Dormindo, cai no chão; mais tarde, já tranqüila,

Sonha com verso-verso, e as ilusões floridas,

Risonhas, vem mostrar-lhe as largas avenidas

Que o longo verso-prosa oculta, do porvir !

Sonhando, ao menos, pode amar, gozar, sentir,

Que um sono alexandrino a deixa ali em paz,

Dormir... dormir... dormir... erguer-se, enfim, vivaz,

Bradando: “Clorofórmio! O gênio que te pôs,

A palma cede ao metro esguio, teu algoz!”


E aspiras, vate, assim, da glória ao ideal?

Triste e funesto afã!... tentativa fatal!

Nesta sede de luz, nesta fome de amor,

 O poeta corre a estrela, à brisa, ao mar, à flor;

Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina,

Quer-lhe o aroma sentir na rosa da campina,

Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar;

Ó inútil esforço! Ó é ímprobo luta!

Em vez da luz, do aroma, ou do alento, ou da voz,

O verso alexandrino, o impassível algoz!...


Não cantas a tristeza, e menos a ventura;

Que em vez do sabiá gemendo na espessura,

Imitarás, no canto, o grilo atrás do lar;

Mas desse estreito asilo, escuro e recatado,

Alegre hás de fugir, que erguendo altivo brado,

A lírica harmonia há de ir-te despertar!


Verás de novo aberta a copiosa fonte!

Da poesia verás tão lúcido o horizonte,

Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar,

Que nas asas do gênio, a voar pelo espaço,

Da perna sacudindo o alexandrino laço,

Hás de a mão bendizer que o soube desatar.


Do precipício foge, e segue a luz secreta,

Essa estrela polar dos sonhos do poeta;

Mas, noutro verso, amigo, onde ao mago ideal

A música se ligue, o senso e a verdade;

— Num destes vai-se, a ler, da vida a imensidade,

Da sílaba primeira à sílaba final!


Meu Deus! Esta existência é transitória e passa;

Se fraco fui aqui, pecando por desgraça;

Se já não tenho jus ao vosso puro amor;

Se nem da salvação nutrir posso a esperança,

Quero em chamas arder, sofrer toda a provança:

— Ler verso alexandrino... Oh! isso não, Senhor!

 F. X. de Novaes 


 * Todos os grifos são do autor do poema, conforme original. 



3. MARIA DUPLESSIS7

( AL. DUMAS FILHO – 1859 )

Fiz promessa, dizendo-te que um dia
Eu iria pedir-te o meu perdão;
Era dever ir abraçar primeiro
A minha doce e última afeição.

E quando ia apagar tanta saudade
Encontrei já fechada a tua porta;
Soube que uma recente sepultura
Muda fechava a tua fronte morta.

Soube que, após um longo sofrimento,
Agravara-se a tua enfermidade;
Viva esperança que eu nutria ainda
Despedaçou cruel fatalidade.

Vi, apertado de fatais lembranças,
A escada que eu subira tão contente;
E as paredes, herdeiras do passado,
Que vem falar dos mortos ao vivente.

Subi e abri com lágrimas a porta
Que ambos abrimos a chorar um dia;
E evoquei o fantasma da ventura
Que outrora um céu de rosas nos abria

Sentei-me à mesa, onde contigo outrora
Em noites belas de verão ceava;*
Desses amores plácidos e amenos
Tudo ao meu triste coração falava.

Fui ao teu camarim, e vi-o ainda
Brilhar com o esplendor das mesmas cores;
E pousei meu olhar nas porcelanas
Onde morriam inda algumas flores...

Vi aberto o piano em que tocavas;
Tua morte o deixou mudo e vazio,
Como deixa o arbusto sem folhagem,
Passando pelo vale, o ardente estio.

Tornei a ver o teu sombrio quarto
Onde estava a saudade de outros dias...
Um raio iluminava o leito ao fundo
Onde, rosa de amor, já não dormias.

As cortinas abri que te amparavam
Da luz mortiça da manhã, querida,
Para que um raio desposasse um toque
De prazer em tua fronte adormecida.

Era ali que, depois da meia-noite,
Tanto amor nós sonhávamos outrora;
E onde até o raiar da madrugada
Ouvíamos bater – hora por hora!

Então olhavas tu a chama ativa
Correr ali no lar, como a serpente;
É que o sono fugia de teus olhos
Onde já te queimava a febre ardente.

Lembras-te agora, nesse mundo novo,
Dos gozos desta vida em que passaste?
Ouves passar, no túmulo em que dormes,
A turba dos festins que acompanhaste?

A insônia, como um verme em flor que murcha,
De contínuo essas faces desbotava;
E pronta para amores e banquetes
Conviva e cortesã te preparava.

Hoje, Maria, entre virentes flores,
Dormes em doce e plácido abandono;
A tua alma acordou mais bela e pura,
E Deus pagou-te o retardado sono.

Pobre mulher! em tua última hora
Só um homem tiveste à cabeceira;
E apenas dois amigos dos de outrora
Foram levar-te à cama derradeira.


Machado de Assis
Crisálidas

4. LÚCIA

 (Alf. de Musset —1860)

Nós estávamos sós; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a mão formosa,
      Na embriaguez da cisma,
Tênue deixava errar sobre o teclado;
Era um murmúrio; parecia a nota
De aura longínqua a resvalar nas balsas
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as volúpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
Ouvíamos a noite, entre-fechada,
      A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os bálsamos;
A várzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sós estávamos
      E tínhamos quinze anos!

      Lúcia era loura e pálida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava – e tanto ! –
Era assim de um irmão o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia!

Nem um som despertava em nossos lábios;
Ela deixou as suas mãos nas minhas;
Tíbia sombra dormia-lhe na fronte,
E a cada movimento – na minha alma
Eu sentia, meu Deus, como fascinam
Os dois signos de paz e de ventura:
      Mocidade da fronte
      E primavera da alma.
A lua levantada em céu sem nuvens
Com uma onda de luz veio inundá-la;
Ela viu sua imagem nos meus olhos,
Um riso de anjo desfolhou nos lábios
 E murmurou um canto.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Filha da dor, ó lânguida harmonia!
Língua que o gênio para amor criara –
E que, herdada do céu, nos deu a Itália!
Língua do coração – onde alva idéia,
— Virgem medrosa da mais leve sombra, —
Passa envolta num véu e oculta aos olhos!
Que ouvirá, que dirá nos teus suspiros
Nascidos do ar, que ele respira – o infante?
Vê-se um olhar, uma lágrima na face,
O resto é um mistério ignoto às turbas, 
Como o do mar, da noite e das florestas!

Estávamos a sós e pensativos.
Eu contemplava-a. Da canção saudosa
Como que em nós estremecia um eco.
Ela curvou a lânguida cabeça...
Pobre criança! – no teu seio acaso
Desdêmona gemia? Tu choravas,
E em tua boca consentias triste
Que eu depusesse estremecido beijo;
Guardou-a a tua dor ciosa e muda:
Assim, beijei-te descorada e fria,
Assim, depois tu resvalaste à campa;
Foi, como a vida, tua morte um riso,
E a Deus voltaste no calor do berço.

Doces mistérios do singelo teto
      Onde a inocência habita;
Cantos, sonhos de amor, gozos de infante,
E tu, fascinação doce e invencível,
Que à porta já de Margarida, — o Fausto
      Fez hesitar ainda,
Candura santa dos primeiros anos,
      Onde parais agora?
Paz à tua alma, pálida menina!
Ermo de vida, o piano em que tocavas
Já não acordará sob os teus dedos! 



Machado de Assis
Crisálidas


5. LUDOVINA MOUTINHO ELEGIA*

(1861)

A bondade choremos inocente
Cortada em flor que, pela mão da morte,
Nos foi arrebatada d’entre a gente.
 CAMÕES – Elegias

Se, como outrora, nas florestas virgens,
Nos fosse dado – o esquife que te encerra*
Erguer a um galho de árvore frondosa,
Certo, não tinhas um melhor jazigo
Do que ali, ao ar livre, entre os perfumes
Da florente estação, imagem viva
De teus cortados dias, e mais perto
           Do clarão das estrelas.

Sobre teus pobres e adorados restos,
Piedosa a noite, ali derramaria
De seus negros cabelos puro orvalho;
À borda do teu último jazigo
Os alados cantores da floresta
Iriam sempre modular seus cantos;
Nem letra, nem lavor de emblema humano,
Relembraria a mocidade morta;
Bastava só que ao coração materno,
Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,
Um aperto, uma dor, um pranto oculto,
Dissesse: — Dorme aqui, perto dos anjos,
A cinza de quem foi gentil transunto
           De virtudes e graças.

Mal havia transposto da existência
Os dourados umbrais; a vida agora
Sorria-lhe toucada dessas flores
Que o amor, que o talento e a mocidade
           A urna repartiam.

Tudo lhe era presságio alegre e doce;
Uma nuvem sequer não sombreava,
Em sua fronte, o íris da esperança;
Era, enfim, entre os seus a cópia viva
Dessa ventura que os mortais almejam,
E que raro a fortuna, avessa ao homem,
           Deixa gozar na terra.
Mas eis que o anjo pálido da morte
A pressentiu feliz e bela e pura,
E, abandonando a região do olvido,
Desceu à terra, e sob a asa negra
A fronte lhe escondeu; o frágil corpo
Não pôde resistir; a noite eterna
           Veio fechar seus olhos:
           Enquanto a alma abrindo
As asas rutilantes pelo espaço,
Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,
 No seio do infinito;
Tal a assustada pomba, que na árvore
O ninho fabricou, — se a mão do homem
Ou a impulsão do vento um dia abate
O recatado asilo, — abrindo o vôo,
           Deixa os inúteis restos
E, atravessando airosa os leves ares,
Vai buscar noutra parte guarida.

Hoje, do que era ainda a lembrança resta,
E que lembrança! Os olhos fatigados
Parecem ver passar a sombra dela;
O atento ouvido inda lhe escuta os passos;
E as teclas do piano, em que seus dedos
Tanta harmonia despertavam antes,
Como que soltam essas doces notas
Que outrora ao seu contato respondiam.

Ah! pesava-lhe este ar da terra impura,
Faltava-lhe esse alento de outra esfera,
Onde, noiva dos anjos, a esperavam
           As palmas da virtude.

Mas, quando assim a flor da mocidade
Toda se esfolha*
 sobre o chão da morte,
Senhor, em que firmar a segurança
Das venturas da terra ? Tudo morre;
À sentença fatal nada se esquiva,
O que é fruto e o que é flor. O homem cego
Cuida haver levantado em chão de bronze
Um edifício resistente aos tempos,
Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,
           O castelo se abate,
Onde, doce ilusão, fechado havias
Tudo o que de melhor a alma do homem
           Encerra de esperanças.

           Dorme, dorme tranqüila
Em teu último asilo: e se eu não pude
Ir espargir também algumas flores
Sobre a lájea da tua sepultura;
Se não pude, — eu que há pouco te saudava
Em teu erguer, estrela, — os tristes olhos
Banhar nos melancólicos fulgores,
Na triste luz do teu recente ocaso,
Deixo-te ao menos nestes pobres versos
Um penhor de saudade, e lá na esfera
Aonde aprouve ao Senhor chamar-te cedo,
Possas tu ler nas pálidas estrofes
         A tristeza do amigo.

Machado de Assis


* O autor optou por este título em suas Poesias Completas. 
* Manteve-se o travessão, tal como na edição original. 
* No original consta desfolha, na errata, esfolha: possivelmente para caber na métrica, em decassílabos. 

6. ASPIRAÇÃO

 A F. X. DE NOVAES
 (1862)

Qu’aperçois-tu, mon ame*
? Au fond, n’est-ce-pas Dieu?
Tu vais à lui . . . . . . . . . . . . . . .
 V DE LAPRADE

Sinto que há na minha alma um vácuo imenso e fundo,
E desta meia morte o frio olhar do mundo
Não vê o que há de triste e de real em mim;
Muita vez, ó poeta, a dor é casta assim;
Refolha-se, não diz no rosto o que ela é,
E nem que o revelasse, o vulgo não põe fé
Nas tristes comoções da verde mocidade,
E responde sorrindo à cruel realidade.

Não assim tu, ó alma, ó coração amigo;
Nu, como a consciência, abro-me aqui contigo;
Tu que corres, como eu, na vereda fatal
Em busca do mesmo alvo e do mesmo ideal.
Deixemos que ela ria, a turba ignara e vã;
Nossas almas a sós, como irmã junto a irmã,
Em santa comunhão, sem cárcere, sem véus.
Conversarão no espaço e mais perto de Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida
Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
Tarja de luto a folha em que lhe deixa escritas
A suprema saudade e as dores infinitas.
Alma errante e perdida em um fatal desterro,
Neste primeiro e fundo e triste limbo do erro,
Chora a pátria celeste, o foco, o centro, a luz,
Onde o anjo da morte, ou da vida, o conduz
No dia festival do grande livramento;
Antes disso, a tristeza, o sombrio tormento,
O torvo azar, e mais, a torva solidão,

Embaciam-lhe na alma o espelho da ilusão.
O poeta chora e vê perderem-se esfolhadas
Da verde primavera as flores tão cuidadas;
Rasga, como Jesus, no caminho das dores,
Os lassos pés; o sangue umedece-lhe as flores
Mortas ali, — e a fé, a fé mãe, a fé santa,
Ao vento impuro e mau que as ilusões quebranta,
Na alma que ali se vai muitas vezes vacila...

Oh! feliz o que pode, alma alegre e tranqüila,
A esperança vivaz e as ilusões floridas,
Atravessar cantando as longas avenidas
Que levam do presente ao secreto porvir!
Feliz esse! Esse pode amar, gozar, sentir,
Viver enfim! A vida é o amor, é a paz,
É a doce ilusão e a esperança vivaz;
Não esta do poeta, esta que Deus nos pôs
Nem como inútil fardo, antes como um algoz.

O poeta busca sempre o almejado ideal...
Triste e funesto afã! tentativa fatal!
Nesta sede de luz, nesta fome de amor,
O poeta corre à estrela, à brisa, ao mar, à flor;
Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina,
Quer–lhe o cheiro aspirar na rosa da campina,
Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar,
Ó inútil esforço! Ó ímprobo lutar!
Em vez da luz, do aroma, ou do alento ou da voz,
Acha-se o nada, o torvo, o impassível algoz!

Onde te escondes, pois, ideal da ventura?
Em que canto da terra, em que funda espessura
Foste esconder, ó fada, o teu esquivo lar ?
Dos homens esquecido, em ermo recatado,
Que voz do coração, que lágrima, que brado
Do sono em que ora estás te virá despertar?

A esta sede de amar só Deus conhece a fonte?
Jorra ele ainda além deste fundo horizonte
Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar?
Que asas nos deste, ó Deus, para transpor o espaço?
Ao ermo do desterro inda nos prende um laço:
Onde encontrar a mão que o venha desatar?

Creio que só em ti há essa luz secreta,
Essa estrela polar dos sonhos do poeta,
Esse alvo, esse termo, esse mago ideal;
Fonte de todo o ser e fonte da verdade,
Nós vamos para ti, e em tua imensidade
É que havemos de ter o repouso final.

É triste quando a vida, erma, como esta, passa;
E quando nos impele o sopro da desgraça
Longe de ti, ó Deus, e distante do amor !
Mas guardemos, poeta, a melhor esperança:
Sucederá a glória à salutar provança:
O que a terra não deu, dar-nos-á o Senhor ! 


Machado de Assis


7. O DILÚVIO

 ( 1863)
E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites.
GENESIS: 7, 12

Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!

Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se um mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.

Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!

Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.

Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além...
Lá vai ! Em torno angústias,
Clamores e lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.

Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela os escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo 
Da extinta humanidade
Salva-se um berço: o vínculo
Da nova criação.

Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Voltando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.

Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor. 


NOTAS DO AUTOR
 E ao som dos nossos cânticos; etc.
Estes versos são postos na boca de uma hebréia. Foram recitados no Ateneu Dramático pela eminente artista D. Gabriela da Cunha, por ocasião da exibição de um quadro do cenógrafo João Caetano, representando o dilúvio universal.



Machado de Assis 

8. ERRO


 (1860)



Vous . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Qui des combats du coeur n’aimez que la victoire

Et qui revëz d’amour, comme on rève de glore,*
 L’oeil fier et non voilé des pleurs. . . . . .
 GEORGE FARCY


Erro é teu. Amei-te um dia Com esse amor passageiro Que nasce na fantasia E não chega ao coração;Nem foi amor, foi apenas Uma ligeira impressão;Um querer indiferente,Em tua presença vivo,Nulo se estavas ausente.E se ora me vês esquivo,Se, como outrora, não vês Meus incensos de poeta Ir eu queimar a teus pés,É que, — como obra de um dia,Passou-me essa fantasia.

Para eu amar-te devias Outra ser e não como eras.Tuas frívolas quimeras,Teu vão amor de ti mesma,Essa pêndula gelada Que chamavas coração,Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada Me conseguissem prender;Foram baldados tentames,Saiu contra ti o azar,E embora pouca, perdeste A glória de me arrastar
Ao teu carro...Vãs quimeras!Para eu amar-te devias Outra ser e não como eras...

9. EPITÁFIO DO MÉXICO

 (1862)

Caminhante, vai dizer aos Lacedemônios que estamos
aqui deitados por termos defendido as suas leis.
 EPITÁFIO DAS TERMÓPILAS


Dobra o joelho: — é um túmulo
Em baixo amortalhado
Jaz o cadáver tépido
De um povo aniquilado;
A prece melancólica
Reza-lhe em torno à cruz.

Ante o universo atônito
Abriu-se a estranha liça,
Travou-se a luta férvida
Da força e da justiça;
Contra a justiça, ó século,
Venceu a espada e o obus.

Venceu a força indômita;
Mas a infeliz vencida
A mágoa, a dor, o ódio,
Na face envilecida
Cuspiu-lhe. E a eterna mácula
Seus louros murchará.

E quando a voz fatídica
Da santa liberdade
Vier em dias prósperos
Clamar à humanidade,
Então revivo o México
Da campa surgirá.
Epitáfio do México, de Machado de Assis.


Machado de Assis
Crisálidas


10. POLÔNIA6

 (1862)

E ao terceiro dia a alma deve voltar ao corpo,
e a nação ressuscitará.
MICKIEWICZ – LIVRO DA NAÇÃO POLACA.


Como aurora de um dia desejado,
Clarão suave o horizonte inunda.
É talvez amanhã. A noite amarga
Como que chega ao termo; e o sol dos livres,
Cansado de te ouvir o inútil pranto,
Ao fim ressurge no dourado Oriente.

Eras livre, — tão livre como as águas
Do teu formoso, celebrado rio;
 A coroa dos tempos
Cingia-te a cabeça veneranda;
E a desvelada mãe, a irmã cuidosa,
 A santa liberdade,
Como junto de um berço precioso,
À porta dos teus lares vigiava.

Eras feliz demais, demais formosa;
A sanhuda cobiça dos tiranos
Veio enlutar teus venturosos dias...
Infeliz! a medrosa liberdade
Em face dos canhões espavorida
Aos reis abandonou teu chão sagrado;
 Sobre ti, moribunda,
Viste cair os duros opressores:
Tal a gazela que percorre os campos,
 Se o caçador a fere,
Cai convulsa de dor em mortais ânsias,
 E vê no extremo arranco
 Abater-se sobre ela
Escura nuvem de famintos corvos.

Presa uma vez da ira dos tiranos,
 Os membros retalhou-te
Dos senhores a esplêndida cobiça;
Em proveito dos reis a terra livre
Foi repartida, e os filhos teus – escravos –
Viram descer um véu de luto à pátria
E apagar-se na história a glória tua.

A glória, não! – É glória o cativeiro 
Quando a cativa, como tu, não perde
A aliança de Deus, a fé que alenta,
E essa união universal e muda
Que faz comuns a dor, o ódio, a esperança.

Um dia, quando o cálix da amargura,
Mártir, até às fezes esgotaste,
Longo tremor correu as fibras tuas;
Em teu ventre de mãe, a liberdade
Parecia soltar esse vagido
Que faz rever o céu no olhar materno;
Teu coração estremeceu; teus lábios
Trêmulos de ansiedade e de esperança,
Buscaram aspirar a longos tragos
A vida nova nas celestes auras.

 Então surgiu Kosciusko;
Pela mão do Senhor vinha tocado;
A fé no coração, a espada em punho,
E na ponta da espada a torva morte,
Chamou aos campos a nação caída.
De novo entre o direito e a força bruta
Empenhou-se o duelo atroz e infausto
 Que a triste humanidade
Inda verá por séculos futuros.
Foi longa a luta; os filhos dessa terra
Ah! não pouparam nem valor nem sangue!
A mãe via partir sem pranto os filhos,
A irmã o irmão, a esposa o esposo,
 E todas abençoavam
A heróica legião que ia à conquista
 Do grande livramento.

 Coube às hostes da força
 Da pugna o alto prêmio;
 A opressão jubilosa
Cantou essa vitória da ignomínia;
E de novo, ó cativa, o véu de luto
Correu sobre teu rosto!
 Deus continha
Em suas mãos o sol da liberdade,
E inda não quis que nesse dia infausto
Teu macerado corpo alumiasse.

Resignada à dor e ao infortúnio,
A mesma fé, o mesmo amor ardente
 Davam-te a antiga força.
Triste viúva, o templo abriu-te as portas; 
Foi a hora dos hinos e das preces;
Cantaste a Deus; tua alma consolada
Nas asas da oração aos céus subia,
Como a refugiar-se e a refazer-se
 No seio do infinito.
E quando a força do feroz cossaco
À casa do Senhor ia buscar-te,
 Era ainda rezando
Que te arrastavas pelo chão da igreja.

Pobre nação! – é longo o teu martírio;
A tua dor pede vingança e termo;
Muito hás vertido em lágrimas e sangue;
É propícia esta hora. O sol dos livres
Como que surge no dourado Oriente.
 Não ama a liberdade
Quem não chora contigo as dores tuas;
E não pede, e não ama, e não deseja
Tua ressurreição, finada heróica! 

Machado de Assis
Crisálidas
Polônia, de Machado de Assis.


Notas do Autor
Eras livre, tão livre como as águas
 Do teu formoso, celebrado rio.
 O rio a que aludem os versos é o Niemen. É um dos rios mais cantados pelos poetas polacos. Há um soneto
de Mickiewicz ao Niemen, que me agradou muito, apesar da prosa francesa em que o li, e do qual escreve um crítico
polaco: “ Há nesta página uma cantilena a que não resiste nenhum ouvido eslavo; foi posta em música pelo célebre
Kurpinski. Assim consagrado, o soneto de Niemen correu toda a Polônia, e só deixará de viver quando deixarem de
correr as águas daquele rio.”
 Foi a hora dos hinos e das preces.
 Alude às cenas da Varsóvia, em que este admirável povo ia aos templos cantar ladainhas sobre a música
dos hinos nacionais, a despeito da invasão da tropa armada nas igrejas. É sabido que por esse motivo se fecharam os templos. 


11. AS ONDINAS

(NOTURNO DE H. HEINE)


Beijam as ondas a deserta praia;
Cai do luar a luz serena e pura;
Cavaleiro na areia reclinado
Sonha em hora de amor e de ventura.

As ondinas, em nívea gaze envoltas,
Deixam do vasto mar o seio enorme;
Tímidas vão, acercam-se do moço,
Olham-se e entre si murmuram: “Dorme!”

Uma – mulher enfim – curiosa palpa
De seu penacho a pluma flutuante;
Outra procura decifrar o mote
Que traz escrito o escudo rutilante.

Esta, risonha, olhos de vivo fogo,
Tira-lhe a espada límpida e lustrosa,
E apoiando-se nela, a contemplá-la
Perde-se toda em êxtase amorosa.

Fita-lhe aquela namorados olhos,
E após girar-lhe em torno embriagada,
Diz: “Que formoso estás, ó flor da guerra,
Quanto te eu dera por te ser amada!”

Uma, tomando a mão ao cavaleiro,
Um beijo imprime-lhe; outra, duvidosa,
Audaz por fim, a boca adormecida
Casa num beijo à boca desejosa.

Faz-se de sonso o jovem; caladinho
Finge do sono o plácido desmaio,
E deixa-se beijar pelas ondinas
Da branca lua ao doce e brando raio. 

Machado de Assis
Crisálidas

12. VISIO

 ( 1864)
Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam...
Os olhos meio cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiam...

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes,
Os teus lábios sequiosos,
Frios, trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...

Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra – calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a visão do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes 
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes;
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.

Inda assim, embora sonho,
Mas, sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida 

Machado de Assis
Crisálidas


13. FÉ

 (1863)

Mueve-me*
 enfin tu amor de tal manera
Que aunque no hubiera cielo yo te amara.
 SANTA THEREZA DE JESUS

 As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
 Os cânticos da terra.

    No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira bússola nos seja,
    Senhor, tua palavra.

   A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que há de abrir à estância eterna
   O fulgido caminho.

   Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
   Vê quanto vale a terra;

   Quando das glórias frias
Que o tempo dá e o mesmo tempo some,
Despida já, — os olhos moribundos
   Volta às eternas glórias;

   Feliz o que nos lábios,
No coração, na mente põe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
   No seio do infinito.

*
 Conforme o original, embora a grafia correta devesse ser mueveme

Machado de Assis
Crisálidas


14. STELLA

 (1862)

 Ouvre ton aile et pars...
 Th. Gauthier

Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.

Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.

À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.

Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.

Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera
Em lágrimas a pares,

Do amor silencioso,
Místico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do etéreo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.

A virgem da manhã
Já todo o céu domina...
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã. 

Machado de Assis
Crisálidas


15. A CARIDADE (1861)


Ela tinha* no rosto uma expressão tão calma
Como o sono inocente e primeiro de uma alma
Donde não se afastou ainda o olhar de Deus;
Uma serena graça, uma graça dos céus**,
Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar,
E nas asas da brisa iam-lhe a ondear
Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.

Levava pela mão duas gentis crianças.

Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto.
Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto
Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada
À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada
A infância lacrimosa, a infância desvalida,
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.

E tu, ó Caridade, ó virgem do Senhor,
No amoroso seio as crianças tomaste,
E entre beijos – só teus — o pranto lhes secaste
Dando-lhes leito e pão, guarida e amor*
.

*
 Note-se a cacofonia, como no original.
** Césu, no original, corrigido na errata. *
 Na errata, o verso escreve-se: Dando-lhes pão, guarida, amparo, leito e amor


Machado de Assis
Crisálidas


16. NO LIMIAR

 (1863)

Caía a tarde. Do infeliz à porta,
Onde mofino arbusto aparecia
De tronco seco e de folhagem morta,

Ele que entrava e Ela que saía
Um instante pararam; um instante
Ela escutou o que Ele lhe dizia;

— “Que fizeste? Teu gesto insinuante
Que lhe ensinou ? Que fé lhe entrou no peito
Ao mago som da tua voz amante?*

“Quando lhe ia o temporal desfeito
De que raio de sol o mantiveste?
E de que flores lhe forraste o leito?”—

Ela, volvendo o olhar brando e celeste,
Disse: — “Varre-lhe a alma desolada,
Que nem um ramo, uma só flor lhe reste!

“Torna-lhe, em vez da paz abençoada,
Uma vida de dor e de miséria,
Uma morte contínua e angustiada.

“Essa é a tua missão torva e funérea.
Eu procurei no lar do infortunado
Dos meus olhos verter-lhe a luz etérea.

“Busquei fazer-lhe um leito semeado
De rosas festivais, onde tivesse
Um sono sem tortura nem cuidado.

“E porque o céu que mais se lhe enegrece,
Tivesse algum reflexo de ventura
Onde o cansado olhar espairecesse,

“Uma réstia de luz suave e pura
Fiz-lhe descer à erma fantasia,
De mel ungi-lhe o cálix** da amargura.

“Foi tudo vão, -- foi tudo vã porfia,
A ventura não veio. A tua hora
Chega na hora que termina o dia.*

“Entra” — E o virgíneo rosto que descora
Nas mãos esconde. Nuvens que correram
Cobrem o céu que o sol já mal colora.

Ambos, com um olhar se compreenderam.
Um penetrou no lar com passo ufano;
Outra tomou por um desvio. Eram:
Ela a Esperança, Ele o Desengano. 

Machado de Assis
Crisálidas
*
 No original, as aspas não fecham.
** Foi mantida a forma arcaica em razão da métrica.
*
 No original, as aspas não fecham. 


17. MUSA CONSOLATRIX

(1864)

Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
 Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

 Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
 Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
 Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
 À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

 Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
 Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
 Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro! 

MUSA CONSOLATRIX, de Machado de Assis



Machado de Assis
Crisálidas



18 VERSOS A CORINA

 Tacendo il nome di questa gentilissima.
 DANTE
(1864) 



I
Car la beauté tue
 Qui l’a vue,
Elle enivre et tue.
 A. Briseux
Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo
Numa hora de amor, de ternura e desejo,
Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor,
Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor;
Depois, depois vestindo a fórma  peregrina,
Aos meus olhos mortais, surgiste-me, Corina!

De um júbilo divino os cantos entoava
A natureza mãe, e tudo palpitava,
A flor aberta e fresca, a pedra bronca e rude,
De uma vida melhor e nova juventude.

Minha alma adivinhou a origem do teu ser:
Quis cantar e sentir; quis amar e viver;
A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura,
Palpitou, reviveu a pobre criatura;
Do amor grande, elevado, abriam-se-lhe as fontes;
Fulgiram novos sóis, rasgaram-se horizontes;
Surgiu, abrindo em flor, uma nova região;
Era o dia marcado à minha redenção.

Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim:
Corpo de fascinar, alma de querubim;
Era assim: fronte altiva e gesto soberano,
Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,
Em olhos senhoris uma luz tão serena,
E grave como Juno, e bela como Helena!
Era assim, a mulher que extasia e domina,
A mulher que reúne a terra e o céu: Corina!

Neste fundo sentir, nesta fascinação,
Que pede do poeta o amante coração?
Viver como nasceste, ó beleza, ó primor,
De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.

Viver, — fundir a existência
Em um ósculo de amor,
Fazer de ambas – uma essência,
Apagar outras lembranças,
Perder outras ilusões,
E ter por sonho melhor
O sonho das esperanças
De que a única ventura
Não reside em outra vida,
Não vem de outra criatura;
Confundir olhos nos olhos,
Unir um seio a outro seio,
Derramar as mesmas lágrimas
E tremer do mesmo enleio,
Ter o mesmo coração,
Viver um do outro viver...
Tal era a minha ambição.

Donde viria a ventura
Desta vida? Em que jardim
Colheria esta flor pura?
Em que solitária fonte
Esta água iria beber?
Em que encendido horizonte
Podiam meus olhos ver
Tão meiga, tão viva estrela,
Abrir-se e resplandecer?
Só em ti: — em ti que és bela,
Em ti que a paixão respiras,
Em ti cujo olhar se embebe
Na ilusão de que deliras,
Em ti, que um ósculo de Hebe
Teve a singular virtude
De encher, de animar teus dias,
De vida e de juventude...

Amemos! diz a flor à brisa peregrina,
Amemos! diz a brisa, arfando em torno à flor;
Cantemos esta lei e vivamos, Corina,
De uma fusão do ser, de uma efusão do amor



II


Mon pauvre coeur, reprends ton sublime courage
Et me chantes ta joie et ton déchirement.
A. Houssaye.
A minha alma, talvez, não é tão pura,
Como era pura nos primeiros dias;
Eu sei: tive choradas agonias
De que conservo alguma nódoa escura,

Talvez. Apenas à manhã da vida
Abri meus olhos virgens e minha alma,
Nunca mais respirei a paz e a calma,
E me perdi na porfiosa lida.

Não sei que fogo interno me impelia
À conquista da luz, do amor, do gozo,
Não sei que movimento imperioso
De um desusado ardor minha alma enchia.

Corri de campo em campo e plaga em plaga.
(Tanta ansiedade o coração encerra!)
A ver o lírio que brotasse a terra,
A ver a escuma que cuspisse – a vaga.

Mas, no areal da praia, no horto agreste,
Tudo aos meus olhos ávidos fugia...
Desci ao chão do vale que se abria,
Subi ao cume da montanha alpestre.

Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-me
Em meus sonhos de moço e de poeta;
E contemplei, nesta ambição inquieta,
Da muda noite a página sublime.

Tomei nas mãos a cítara saudosa,
E soltei entre lágrimas um canto...
A terra brava recebeu meu pranto
E o eco repetiu-me a voz chorosa.

Foi em vão. Como um lânguido suspiro,
A voz se me calou, e do ínvio monte
Olhei ainda as linhas do horizonte,
Como se olhasse o último retiro.

Nuvem negra e veloz corria solta
O anjo da tempestade anunciando;
Vi ao longe as alcíones cantando
Doidas correndo à flor da água revolta.

Desiludido, exausto, ermo, perdido,
Busquei a triste estância do abandono,
E esperei, aguardando o último sono,
Volver à terra, de que foi nascido.

— “Ó Cibele fecunda, é no remanso
Do teu seio – que vive a criatura;
Chamem-te outros morada triste e escura,
Chamo-te glória, chamo-te descanso!”

Assim falei. E murmurando aos ventos
Uma blasfêmia atroz – estreito abraço
Homem e terra uniu, e em longo espaço
Aos ecos repeti meus vãos lamentos.

Mas, tu passaste... Houve um grito
Dentro de mim. Aos meus olhos
Visão de amor infinito,
Visão de perpétuo gozo
Perpassava e me atraía,
Como um sonho voluptuoso
De sequiosa fantasia.
Ergui-me logo do chão,
E pousei meus olhos fundos
Em teus olhos soberanos,
Ardentes, vivos, profundos,
Como os olhos da beleza
Que das escumas nasceu...
Eras tu, maga visão
Eras tu o ideal sonhado
Que em toda a parte busquei,
E por quem houvera dado
A vida que fatiguei;
Por quem verti tanto pranto,
Por quem nos longos espinhos
Minhas mãos, meus pés sangrei!

Mas se minha alma, acaso, é menos pura
Do que era pura nos primeiros dias,
Porque não soube em tantas agonias
Abençoar a minha desventura;

Se a blasfêmia os meus lábios poluíra,
Quando, depois do tempo e do cansaço,
Beijei a terra no mortal abraço
E espedacei desanimado a lira;

Podes, visão formosa e peregrina,
No amor profundo, na existência calma,
Desse passado resgatar minha alma
E levantar-me aos olhos teus, — Corina!



III
Se tu pudesses viver um dia na minha alma...
feliz criatura, tu saberias o que é sofrer!
MICKIEWICZ .— Sonetos da Criméia


Quando voarem minhas esperanças,
Como um bando de pombas fugitivas;
E destas ilusões doces e vivas
Só me restarem pálidas lembranças;

E abandonar-me a minha mãe Quimera,
Que me aleitou aos seios abundantes;
E vierem as nuvens flamejantes
Encher o céu da minha primavera;

E raiar para mim um triste dia,
Em que, por completar minha tristeza,
Nem possa ver-te, musa da beleza,
Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;

Quando assim seja, por teus olhos juro,
Voto minha alma à escura soledade,
Sem procurar melhor felicidade,
E sem ambicionar prazer mais puro.

Como o viajor que, de falaz miragem
Volta desenganado ao lar tranqüilo,
E procura, naquele último asilo,
Nem evocar memórias da viagem;

Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados
A tudo mais, — a minha fantasia
As asas colherá com que algum dia
Quis alcançar os cimos elevados.

És tu a maior glória de minha alma,
Se o meu amor profundo não te alcança,
De que me servirá outra esperança?
Que glória tirarei de alheia palma?

Que valem glórias vãs? A glória, a melhor glória,
É esta que nos orna a poesia da história;
É a glória do céu, é a glória do amor.
É Tasso eternizando a princesa Leonor;
É Lídia ornando a lira ao venusino Horácio;
É a doce Beatriz, flor e honra do Lácio,
Seguindo além da vida as viagens do Dante;
É do cantor do Gama o hino triste e amante
Levando à eternidade o amor de Catarina;
É o amor que une Ovídio à formosa Corina;
O de Cíntia a Propércio, o de Lésbia a Catulo;
O da divina Délia ao divino Tibulo.
Esta a glória que fica, eleva, honra e consola;*
Outra não há melhor.
 Se faltar esta esmola,
Corina, ao teu poeta, e se a doce ilusão,
Com que se alenta e vive o amante coração,
Deixar-lhe um dia o céu azul, tão tranqüilo,
Nenhuma glória mais há de nunca atraí-lo.
Irá longe do mundo e dos seus vãos prazeres,
Viver na solidão a vida de outros seres,
Vegetar como o arbusto, e murchar, como a flor,
Como um corpo sem alma ou alma sem amor.

Ah! faze que estas ilusões tão vivas
Nunca se tornem pálidas lembranças;
E nem voem as minhas esperanças
Como um bando de pombas fugitivas!




IV
Ne vois-tu pas ?
A.M.
Tu que és bela e feliz, tu que tens por diadema
A dupla irradiação da beleza e do amor;
E sabes reunir, como o melhor poema,
Um desejo da terra e um toque do Senhor;

Tu, criação feliz de um dia de pureza,
Em que a terra não teve um só pecado, irmã
Das visões que sonhou no culto da beleza
A musa de Petrarca e o pincel de Rembrant;

Tu que, como a ilusão, entre névoas deslizas
Aos versos do poeta um desvelado olhar,
Corina, ouve a canção das amorosas brisas,
Do poeta e da luz, das selvas e do mar.

 AS BRISAS

Deu-nos a harpa eólia a excelsa melodia
Que a folhagem desperta e torna alegre a flor,
Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia,
Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor?

Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto?
Que alma de serafim volteia aos lábios teus?
Donde houveste o segredo e o poderoso encanto
Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?

 A LUZ

Eu sou a luz fecunda, alma da natureza;
Sou o vivo alimento à viva criação.
Deus lançou-me no espaço. A minha realeza
Vai até onde vai meu vívido clarão.

Mas se derramo vida a Cibele fecunda,
Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor,
A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda,
Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.

 AS ÁGUAS

Do nume da beleza o berço celebrado
Foi o mar. Vênus bela entre espumas nasceu.
Veio a idade de ferro, e o nume venerado
Do venerado altar baqueou: — pereceu.

Mas a beleza és tu. Como Vênus marinha,
Tens a inefável graça e o inefável ardor.
Se paras, és um nume; andas, uma rainha,
E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor!

Chamam-te as águas, vem! tu irás sobre a vaga
A vaga, a tua mãe, que te abre os seios nus,
Buscar adorações de uma plaga a outra plaga,
E das regiões da névoa às regiões da luz!

 AS SELVAS

Um silêncio de morte entrou no seio às selvas.
Já não pisa Diana este sagrado chão;
Nem já vem repousar no leito destas relvas
Aguardando saudosa o amor e Endimião.

Da grande caçadora a um solícito aceno
Já não vem, não acode o grupo jovial;
Nem o eco repete a flauta de Sileno,
Após o grande ruído a mudez sepulcral.

Mas Diana aparece. A floresta palpita,
Uma seiva melhor circula mais veloz;
É a vida que renasce, é vida que se agita;
À luz do teu olhar, ao som da tua voz!

 O POETA

Também eu, sonhador, que vi correr meus dias
Na solene mudez da grande solidão,
E soltei, enterrando as minhas utopias,
O último suspiro e a última oração;

Também eu junto a voz à voz da natureza,
E soltando o meu hino ardente e triunfal,
Beijarei ajoelhado as plantas da beleza
E banharei minha alma em tua luz, — Ideal!

Ouviste a natureza? Às súplicas e às mágoas
Tua alma de mulher deve de palpitar;
Mas que te não seduza o cântico das águas,
Não procures, Corina, o caminho do mar!



V
Povero mio core! Ecco una separazione di piú nella
mia scigurata vita!
SILVIO PELLICO

Guarda estes versos que escrevi chorando
Como um alívio à minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um eco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.

Único em meio das paixões vulgares,
Fui a teus pés queimar minha alma ansiosa,
Como se queima o óleo ante os altares;
Tive a paixão indômita e fogosa,
Única em meio das paixões vulgares.

Cheio de amor, vazio de esperança,
Dei para ti os meus primeiros passos;
Minha ilusão fez-me, talvez, criança;
E eu pretendi dormir aos teus abraços,
Cheio de amor, vazio de esperança.

Refugiado à sombra do mistério
Pude cantar meu hino doloroso;
E o mundo ouviu o som doce ou funéreo
Sem conhecer o coração ansioso
Refugiado à sombra do mistério.

Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Vejo que em teus olhares de princesa
Transluz uma alma ardente e compassiva
Capaz de reanimar minha incerteza;
Mas eu que posso contra a sorte esquiva?

Como um réu indefeso e abandonado,
Fatalidade, curvo-me ao teu gesto;
E se a perseguição me tem cansado,
Embora, escutarei o teu aresto
Como um réu indefeso e abandonado.

Embora fujas aos meus olhos tristes,
Minha alma irá saudosa, enamorada,
Acercar-se de ti lá onde existes;
Ouvirás minha lira apaixonada,
Embora fujas aos meus olhos tristes.

Talvez um dia meu amor se extinga,
Como fogo de Vesta mal cuidado
Que sem o zelo da Vestal não vinga:
Na ausência e no silêncio condenado
Talvez um dia meu amor se extinga.

Então não busques reavivar a chama;
Evoca apenas a lembrança casta
Do fundo amor daquele que não ama;
Esta consolação apenas basta;
Então não busques reavivar a chama.

Guarda estes versos que escrevi chorando
Como um alívio à minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um eco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.


VI
O amor tem asas, mas ele também pode dálas.

 HOMERO
Em vão! Contrário a amor é nulo o esforço humano;
É nulo o vasto espaço, é nulo o vasto oceano.
Solta do chão, abrindo as asas luminosas,
Minha alma se ergue e voa às regiões venturosas,
Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corina,
Reveste a natureza a púrpura divina!

Lá, como quando volta a primavera em flor,
Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor;
Ao influxo celeste e doce da beleza,
Pulsa, canta, irradia e vive a natureza;
Mais lânguida e mais bela a tarde pensativa
Desce do monte ao vale; e a viração lasciva
Vai despertar à noite a melodia estranha
Que falam entre si os olmos da montanha;
A flor tem mais perfume e a noite mais poesia;
O mar tem novos sons e mais viva ardentia;
A onda enamorada arfa e beija as areias,
Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias!

O esplendor da beleza é raio criador:
Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor.
Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida,
Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal sofrida
Da saudade que punge e do amor que lacera,
E palpita e soluça e sangra e desespera.
Sinto em torno de mim a muda natureza
Respirando, como eu, a saudade e a tristeza;
A saudade do bem e a tristeza do mal;
Tristeza sem irmã, saudade sem igual.

É deste ermo que eu vou, alma desventurada,
Murmurar junto a ti a estrofe imaculada
Do amor que não perdeu, co’a última esperança,
Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança.

Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda,
Do meu sombrio céu alva estrela bem-vinda!
Como divaga a abelha inquieta e sequiosa
Do cálice do lírio ao cálice da rosa,
Divaguei de alma em alma em busca deste amor;
Gota de mel divino, era divina a flor
Que o devia conter. Eras tu.

 No delírio
De te amar – olvidei as lutas e o martírio;
Eras tu. Eu só quis, numa ventura calma,
Sentir e ver o amor através de uma alma; 
De outras belezas vãs não valeu o esplendor,
A beleza eras tu: — tinhas a alma e o amor.

Pelicano do amor, dilacerei meu peito,
E com meu próprio sangue os filhos meus aleito;
Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança;
Por eles reparti minha alma. Na provança
Ela não fraqueou, antes surgiu mais forte;
É que eu pus neste amor, neste último transporte
Tudo o que vivifica a minha juventude:
O culto da verdade e o culto da virtude,
A vênia do passado e a ambição do futuro,
O que há de grande e belo, o que há de nobre e puro.

Deste profundo amor, doce e amada Corina,
Acorda-te a lembrança um eco de aflição?
Minha alma pena e chora à dor que a desatina:
Sente tua alma acaso a mesma comoção?

Em vão! Contrário a amor é nulo o esforço humano,
É nulo o vasto espaço, é nulo o vasto oceano!

Vou, sequioso espírito,
Cobrando novo alento,
Na asa veloz do vento
Correr de mar em mar;
Posso, fugindo ao cárcere,
Que à terra me tem preso,
Em novo ardor aceso,
Voar, voar, voar!

Então, se à hora lânguida
Da tarde que declina,
Do arbusto da colina
Beijando a folha e a flor,
A brisa melancólica
Levar-te entre perfumes
Uns tímidos queixumes
Ecos de mágoa e dor;

Então, se o arroio tímido
Que arrasta-se e murmura
À sombra da espessura
Dos verdes salgueirais,
Mandar-te entre os murmúrios
Que solta nos seus giros,
Uns como que suspiros
De amor, uns ternos ais;

Então, se no silêncio
Da noite adormecida,
Sentires – mal dormida –
Em sonho ou em visão,
Um beijo em tuas pálpebras,
Um nome aos teus ouvidos,
E ao som de uns ais partidos
Pulsar teu coração;

Da mágoa que consome
O meu amor venceu;
Não tremas – é teu nome,
Não fujas – que sou eu! –


FIM DOS VERSOS A CORINA
Machado de Assis - Crisálida

19. OS ARLEQUINS 5

SÁTIRA

(1864)

 Que deviendras dans l’éternité l’âme d’un

 homme qui a fait Polichinelle toute sa vie?

 M.ME DE STAEL

 Musa, depõe a lira!

Cantos de amor, cantos de glória esquece!

 Novo assunto aparece

Que o gênio move e a indignação inspira.

 Esta esfera é mais vasta,

E vence a letra nova a letra antiga!

 Musa, toma a vergasta,

 E os arlequins fustiga!

 Como aos olhos de Roma,

— Cadáver do que foi, pávido império

 De Caio e de Tibério, —

O filho de Agripina ousado assoma;

 E a lira sobraçando,

Ante o povo idiota e amedrontado,

 Pedia, ameaçando,

 O aplauso acostumado;

 E o povo que beijava

Outrora ao deus Calígula o vestido,

 De novo submetido

Ao régio saltimbanco o aplauso dava.

 E tu, tu não te abrias,

Ó céu de Roma, à cena degradante!

 E tu, tu não caías,

 Ó raio chamejante!

 Tal na história que passa

Neste de luzes século famoso,

 O engenho portentoso

Sabe iludir a néscia populaça;

 Não busca o mal tecido

Canto de outrora; a moderna insolência

 Não encanta o ouvido,

 Fascina a consciência!

 Vede; o aspecto vistoso,

O olhar seguro, altivo e penetrante,

 E certo ar arrogante

Que impõe com aparências de assombroso;

 Não vacila, não tomba, 

Caminha sobre a corda firme e alerta:

 Tem consigo a maromba

 E a ovação é certa.

 Tamanha gentileza,

Tal segurança, ostentação tão grande,

 A multidão expande

Com ares de legítima grandeza.

 O gosto pervertido

Acha o sublime neste abatimento,

 E dá-lhe agradecido

 O louro e o monumento.

 Do saber, da virtude,

Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,

 Um manto de retalhos

Que a consciência universal ilude.

 Não cora, não se peja

Do papel, nem da máscara indecente,

 E ainda inspira inveja

 Esta glória insolente!

 Não são contrastes novos;

Já vem de longe; e de remotos dias

 Tornam em cinzas frias

O amor da pátria e as ilusões dos povos.

 Torpe ambição sem peias

De mocidade em mocidade corre,

 E o culto das idéias

 Treme, convulsa e morre.

 Que sonho apetecido

Leva o ânimo vil a tais empresas?

 O sonho das baixezas:

Um fumo que se esvai e um vão ruído;

 Uma sombra ilusória

Que a turba adora ignorante e rude;

 E a esta infausta glória

 Imola-se a virtude.

 A tão estranha liça

Chega a hora por fim do encerramento,

 E lá soa o momento

Em que reluz a espada da justiça.

 Então, musa da história,

Abres o grande livro, e sem detença

 À envilecida glória

 Fulminas a sentença. 


Machado de Assis Crisálidas

20. A ELA

Quem és tu que me atormentas
Com teus prazenteiros sorrisos?
Quem és tu que me apontas
As portas dos paraísos?
Imagem do céu és tu?
És filha da divindade?
Ou vens prender em teus cabelos
A minha liberdade?
“Vê V. Exa., Sr. presidente, que nesse tempo, o nobre deputado era inimigo de todas as leis
opressoras. A assembléia tem visto como ele trata as leis do metro.”
Todo o resto do discurso foi assim. A minoria protestou. Luís Tinoco fez-se de todas as cores, e a
sessão acabou em risada. No dia seguinte os jornais amigos de Luís Tinoco agradeceram ao
adversário deste o triunfo que lhe proporcionou mostrando à província “uma antiga e brilhante face do
talento do ilustre deputado”. Os que indecorosamente riram dos versos, foram condenados com estas
poucas linhas: “Há dias um deputado governista disse que a situação era uma caravana de homens
honestos e bons. É caravana, não há dúvida; vimos ontem os seus camelos”.
Nem por isso, Luís Tinoco ficou mais consolado. As cartas ao Dr. Lemos começaram a escassear, até
que de todo cessaram de aparecer. Decorreram assim silenciosos uns três anos, ao cabo dos quais o
Dr. Lemos foi nomeado não sei para que cargo na província onde se achava Luís Tinoco. Partiu.
Apenas empossado do cargo, tratou de procurar o ex-poeta, e pouco tempo gastou recebendo logo um
convite dele para ir a um estabelecimento rural onde se achava.
– Há de me chamar ingrato, não? disse Luís Tinoco, apenas viu assomar à porta de casa o
Dr. Lemos. Mas não sou; contava ir vê-lo daqui a um ano; e se lhe não escrevi... Mas que tem doutor?
está espantado?
O Dr. Lemos estava efetivamente pasmado a olhar para a figura de Luís Tinoco. Era aquele o poeta
dos Goivos e Camélias, o eloqüente deputado, o fogoso publicista? O que ele tinha diante de si era um
honrado e pacato lavrador, ar e maneiras rústicas, sem o menor vestígio das atitudes melancólicas do
poeta, do gesto arrebatado do trbuno, - uma transformação, uma criatura muito outra e muito melhor.
Riram-se ambos, um da mudança, outro do espanto, pedindo o Dr. Lemos a Luís Tinoco lhe dissesse
se era certo haver deixado a política, ou se aquilo eram apenas umas férias para renovar a alma.
– Tudo lhe explicarei, doutor, mas há de ser depois de ter examinado a minha casa e
minha roça, depois de lhe apresentar minha mulher e meus filhos...
– Casado?
– Há vinte meses.
– E não me disse nada!
– Ia este ano à corte e esperava surpreendê-lo... Que duas criancinhas as minhas... lindas
como dois anjos. Saem à mãe, que é a flor da província. Oxalá pareçam também com ela nas
qualidades de dona de casa; que atividade! que economia!...
Feita a apresentação, beijadas as crianças, examinado tudo, Luís Tinoco declarou ao Dr. Lemos que
definitivamente deixara a política.
– De vez?
– De vez.
– Mas que motivo? desgostos, naturalmente.
– Não; descobri que não era fadado para grandes destinos. Um dia leram-me na
assembléia alguns versos meus. Reconheci então quanto eram pífios os tais versos; e podendo vir
mais tarde a olhar com a mesma lástima e igual arrependimento para as minhas obras políticas,
arrepiei carreira e deixei a vida pública. Uma noite de reflexão e nada mais.
– Pois teve ânimo?...
– Tive, meu amigo, tive ânimo de pisar terreno sólido, em vez de patinhar nas ilusões dos
primeiros dias. Eu era um ridículo poeta e talvez ainda mais ridículo orador. Minha vocação era esta.
Com poucos anos mais estou rico. Ande agora beber o café que nos espera e feche a boca, que as

moscas andam no ar.

20 Poemas de Machado de Assis | Literatura Clássica em Série



Veja também

Quem foi Machado de Assis?


Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil (Wikipedia)


Tecnologia do Blogger.
 
Sobre | Termos de Uso | Política de Cookies | Política de Privacidade

João 3 16 Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.