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Espumas Flutuantes Antônio Frederico de Castro Alves

Título:    Espumas Flutuantes

Autor:    Antônio Frederico de Castro Alves   

Categoria:    Literatura

Idioma:    Português

 Espumas Flutuantes Antônio Frederico de Castro Alves



Fragmento

ESPUMAS FLUTUANTES
Antônio de Castro Alves
À memória de
Meu Pai, de Minha Mãe
e de Meu Irmão
O. D. C.
PRÓLOGO
Era por uma dessas tardes, em que o azul do céu oriental — é pálido e saudoso, em que o
rumor do vento nas vergas — é monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio —
é queixoso e tétrico.
Das bandas do Ocidente o sol se atufava nos mares “como um brigue em chamas”... e daquele vasto incêndio
do crepúsculo alastrava-se a cabeça loura das ondas.
Além... os cerros de granito dessa formosa terra da Guanabara, vacilantes, a lutarem com a onda invasora de
azul, que descia das alturas... recortavam-se indecisos na penumbra do horizonte.
Longe, inda mais longe... os cimos fantásticos da serra dos Órgãos embebiam-se na
distância, sumiam-se, abismavam-se numa espécie de naufrágio celeste.
Só e triste, encostado à borda do navio, eu seguia com os olhos aquele esvaecimento
indefinido e minha alma apegava-se à forma vacilante das montanhas — derradeiras atalaias dos
meus arraiais da mocidade.
É que lá, dessas terras do Sul, para onde eu levara o fogo de todos os entusiasmos, o viço de
todas as ilusões, os meus vinte anos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de glória e de
futuro:... é que dessas terras do Sul, onde eu penetrara “como o moço Rafael subindo as escadas
do Vaticano;”... volvia agora silencioso e alquebrado... trazendo por única ambição — a
esperança de repouso em minha pátria.
Foi então que, em face destas duas tristezas — a noite que descia dos céus, — a solidão que
subia do oceano —, recordei-me de vós, ó meus amigos!
E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde
vagara; nem sequer a lembrança desta alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e
cantara...
Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!... Vós bem sabeis
quanto sois efêmeros... — passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro
esquecimento.
E quando — comediantes do infinito — vos obumbrais nos bastidores do abismo, o que
resta de vós?
— Uma esteira de espumas... — flores perdidas na vasta indiferença do oceano. — Um
punhado de versos... — espumas flutuantes no dorso fero da vida!...
E o que são na verdade estes meus cantos?... 
2
Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, eles são filhos da musa
— este sopro do alto; do coração — este pélago da alma.
E como as espumas são, às vezes, a flora sombria da tempestade, eles por vezes rebentaram
ao estalar fatídico do látego da desgraça.
E como também o aljofre dourado das espumas reflete as opalas rutilantes do arco-íris, eles por acaso
refletiram o prisma fantástico do entusiasmo — estes signos brilhantes da aliança de Deus com a juventude!
Mas, como as espumas flutuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lágrima saudosa
do marujo... possam eles, ó meus amigos! — efêmeros filhos de minh’alma — levar uma
lembrança de mim às vossas plagas!...
 São Salvador, fevereiro de 1870
 Antônio de Castro Alves

Espumas Flutuantes	Antônio Frederico de Castro Alves



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