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Contos para Velhos Olavo Bilac

 Título:    Contos para Velhos

Autor:    Olavo Bilac   

Categoria:    Literatura

Idioma:    Português

Contos para Velhos Olavo Bilac





Fragmento

CONTOS PARA VELHOS
Bob (pseudônimo de Olavo Bilac)
I
OS ÓCULOS
O velho e austero doutor Ximenes, um dos mais sábios professores da Faculdade, tem uma espinhosa missão
a cumprir junto da pálida e formosa Clarice... Vai examiná-la: vai dizer qual a razão da sua fraqueza, qual a origem
daquele depauperamento, daquela triste agonia de flor que murcha e se estiola.
A bela Clarice!... É casada há seis meses com o gordo João Paineiras, o conhecido corretor de fundos, — o
João dos óculos —, como o chamam na Praça por causa daqueles grossos e pesados óculos de ouro que nunca
deixam o seu forte nariz de ventas cabeludas. Há seis meses ela mingua, e emagrece, e tem na face a cor da cera das
promessas de igreja — a bela Clarice. E — ó espanto! — quanto mais fraca vai ficando ela, mais forte vai ficando
ele, o João dos óculos, — um latagão que vende saúde aos quilos. Assusta-se a família da moça. Ele, com seu imenso
sorriso, vai dizendo que não sabe... que não compreende... porque, enfim, — que diabo! — se a culpa fosse sua, ele
também estaria na espinha...
E é o velho e austero Dr. Ximenes, um dos mais sábios professores da Faculdade, um poço de ciência e
discrição, quem vai esclarecer o mistério. Na sala, a família ansiosa espia com rancor a gorda face do João
impassível. E na alcova, demorado e minucioso exame continua.
Já o velho doutor, com a cabeça encanecida sobre a pele nua do peito da enferma, auscultou longamente os
seus pulmões delicados: já, levemente apertando entre os dedos aquele punho macio e branco, tateou o pulso, tênue
como um fio de seda... Agora, com o olhar arguto, percorre a pele da bela Clarice — branca e cheirosa pele — o
colo, a cinta, o resto... De repente — que é aquilo que o velho e austero doutor percebe na pele, abaixo... abaixo...
abaixo do ventre?... Leves escoriações, quase imperceptíveis arranhaduras avultam aqui e ali vagamente... nas
coxas...
O velho e austero doutor Ximenes funga uma pitada, coça a calva, olha fixamente os olhos da sua doente,
toda alvoroçada de pudor:
— Isto que é, filha? Pulgas? Unhas de gato?
E a bela Clarice, toda de confusão, enrolando-se no penteador de musselina como n’uma nuvem, balbucia,
corando:
— Não! Não é nada... não sei... isto é... talvez seja dos óculos do João... 

CONTOS PARA VELHOS Bob (pseudônimo de Olavo Bilac) I OS ÓCULOS O velho e austero doutor Ximenes, um dos mais sábios professores da Faculdade, tem uma espinhosa missão a cumprir junto da pálida e formosa Clarice... Vai examiná-la: vai dizer qual a razão da sua fraqueza, qual a origem daquele depauperamento, daquela triste agonia de flor que murcha e se estiola. A bela Clarice!... É casada há seis meses com o gordo João Paineiras, o conhecido corretor de fundos, — o João dos óculos —, como o chamam na Praça por causa daqueles grossos e pesados óculos de ouro que nunca deixam o seu forte nariz de ventas cabeludas. Há seis meses ela mingua, e emagrece, e tem na face a cor da cera das promessas de igreja — a bela Clarice. E — ó espanto! — quanto mais fraca vai ficando ela, mais forte vai ficando ele, o João dos óculos, — um latagão que vende saúde aos quilos. Assusta-se a família da moça. Ele, com seu imenso sorriso, vai dizendo que não sabe... que não compreende... porque, enfim, — que diabo! — se a culpa fosse sua, ele também estaria na espinha... E é o velho e austero Dr. Ximenes, um dos mais sábios professores da Faculdade, um poço de ciência e discrição, quem vai esclarecer o mistério. Na sala, a família ansiosa espia com rancor a gorda face do João impassível. E na alcova, demorado e minucioso exame continua. Já o velho doutor, com a cabeça encanecida sobre a pele nua do peito da enferma, auscultou longamente os seus pulmões delicados: já, levemente apertando entre os dedos aquele punho macio e branco, tateou o pulso, tênue como um fio de seda... Agora, com o olhar arguto, percorre a pele da bela Clarice — branca e cheirosa pele — o colo, a cinta, o resto... De repente — que é aquilo que o velho e austero doutor percebe na pele, abaixo... abaixo... abaixo do ventre?... Leves escoriações, quase imperceptíveis arranhaduras avultam aqui e ali vagamente... nas coxas... O velho e austero doutor Ximenes funga uma pitada, coça a calva, olha fixamente os olhos da sua doente, toda alvoroçada de pudor: — Isto que é, filha? Pulgas? Unhas de gato? E a bela Clarice, toda de confusão, enrolando-se no penteador de musselina como n’uma nuvem, balbucia, corando: — Não! Não é nada... não sei... isto é... talvez seja dos óculos do João...



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