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Deus e o Estado Mikhail Bakunin


Título:    Deus e o Estado

Autor:    Mikhail Bakunin   Listar as obras deste autor

Categoria:    Ciência Política

Idioma:    Português

Deus e o Estado Mikhail Bakunin





Deus e o Estado é uma das obras literárias mais importantes publicados pelo teórico libertário russo Mikhail Bakunin. Foi escrito nos meses de fevereiro e março de 1871. Foi escrito com a intenção de servir como a segunda parte de um trabalho maior que seria chamado O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social.  (Wikipedia)

Esta edição de Deus e o Estado, cujo título não foi de autoria de Bakunin,
recupera a primeira, de 1882, organizada por Carlo Cafiero e Elisée Reclus,
publicada em Genebra pela Gráfica Juraciana. No livro Bakounine - combats et
idées, lançado pelo Instituto de Estudos Eslavos, Paris, 1979, p. 242, afirma
Pierre Pécheaux em artigo intitulado "1882 - Deus e o Estado, editado por
Carlo Cafiero e Elisée Reclus": "Este escrito, que é um fragmento da 2ª edição do Império
Cnuto-Germânico e a Revolução Social, e o mais conhecido da obra de Bakunin, traduzido
para uma quinzena de idiomas, é objeto de pelo menos 75 edições. De 1882 a 1973,
levantamos 71 edições em quinze idiomas diferentes". Neste mesmo livro há um outro artigo -
"Balanço das publicações" -, onde Pécheaux declara que houve quatro versões de Deus e o
Estado: a primeira, de 1882, de Carlo Cafiero e Elisée Reclus; a segunda, de 1895, de Max
Nettlau; a terceira, uma combinação dos textos contidos nas duas anteriores e a quarta, do
citado Nettlau, acrescida de outros escritos de 1870 e 1871. Em função dessas combinações
variadas de textos, cria-se a confusão durante muitos anos a respeito do conteúdo de Deus e
o Estado, título que coube a Carlo Cafiero, na edição de 1882, mas que foi aproveitado em
diferentes edições subsequentes. A tradução para o português é de Plínio Augusto Coelho.
Apresentação
Esta apresentação foi escrita como advertência para a primeira edição desta obra, em 1882,
por Carlo Cafiero e Elisée Reclus.
A vida de Mikhail Bakunin já é suficientemente conhecida em seus
traços gerais. Amigos e inimigos sabem que este homem foi grande
no intelecto, na vontade, na energia perseverante; sabem que grau
de desprezo ele ressentia pela fortuna, pela posição social, pela
glória, todas estas misérias que a maioria dos humanos têm a
baixeza de ambicionar. Fidalgo russo, aparentado da mais alta
nobreza do império, entrou, um dos primeiros, nesta orgulhosa
associação de revoltados que souberam se libertar das tradições,
dos preconceitos, dos interesses de raça e de classe, e desprezar
seu bem-estar. Com eles enfrentou a dura batalha da vida, agravada
pela prisão, pelo exílio, por todos os perigos e todas as amarguras
que os homens devotados sofrem em sua existência atormentada.
Uma simples pedra e um nome marcam no cemitério de Berna o lugar
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onde foi depositado o corpo de Bakunin. E, talvez, muito para honrar a
memória de um lutador que tinha as vaidades deste gênero em tão
medíocre estima! Seus amigos não farão construir para ele, certamente,
nem faustosos túmulos nem estátua. Sabem com que amplo riso ele os
teria acolhido se lhe tivessem falado de um jazigo edificado em sua
glória. Sabem também que a verdadeira maneira de honrar seus mortos é
continuar sua obra - com o ardor e a perseverança que eles próprios
dedicam a ela. Certamente que esta é uma tarefa difícil, que demanda
todos os nossos esforços, pois, entre os revolucionários da geração que
passa, não há sequer um que tenha trabalhado com mais fervor pela
causa comum da Revolução.
Na Rússia, entre os estudantes, na Alemanha, entre os insurretos de
Dresden, na Sibéria, entre seus irmãos de exílio, na América, na
Inglaterra, na França, na Suíça, na Itália, entre todos os homens de boa
vontade, sua influência direta foi considerável. A originalidade de suas
idéias, sua eloquência figurada e veemente, seu zelo infatigável na
propaganda, ajudados, por sinal, pela majestade natural de sua
aparência e por uma vitalidade possante, abriram a Bakunin o acesso a
todos os grupos revolucionários socialistas, e sua ação deixou em todos
os lugares marcas profundas, mesmo entre aqueles que, após o
acolherem, o rejeitaram por causa da diferença de objetivo ou de método.
Sua correspondência era das mais extensas; passava noites inteiras
redigindo longas epístolas a seus amigos do mundo revolucionário, e
algumas destas cartas, destinadas a fortalecer os tímidos, a despertar os
adormecidos, a traçar planos de propaganda ou de revolta, tomaram as
proporções de verdadeiros volumes. São estas cartas que explicam
sobretudo a prodigiosa ação de Bakunin no movimento revolucionário do
século.
As brochuras por ele publicadas, em russo, em francês, em italiano, por
mais importantes que sejam, e por mais úteis que tenham sido para
disseminar as novas idéias, são a parte mais fraca da obra de Bakunin.
O texto que publicamos hoje, Deus e o Estado, não é outra coisa, na
realidade, senão um fragmento de carta ou de relatório. Composto da
mesma maneira que a maioria dos outros escritos de Bakunin, possui o
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mesmo defeito literário, a falta de proporções; além disso, é bruscamente
interrompido: todas as buscas por nós realizadas para encontrar o final
do manuscrito foram em vão. Bakunin nunca tinha o tempo necessário
para concluir todos os trabalhos empreendidos. Obras eram começadas
sem que outras tivessem sido terminadas. "Minha própria vida é um
fragmento", dizia àqueles que criticavam seus escritos. Entretanto, os
leitores de Deus e o Estado certamente não lamentarão que o texto de
Bakunin, ainda que incompleto, tenha sido publicado. Nele, as questões
aparecem tratadas com um singular vigor de argumentação e de uma
maneira decisiva. Ao se dirigir, com justa razão, aos adversários de boa
fé, Bakunin lhes demonstra a inanidade de sua crença nesta autoridade
divina sobre a qual foram fundamentadas todas as autoridades
temporais; ele lhes prova a gênese puramente humana de todos os
governos; enfim, sem deter-se naquelas origens do Estado que já estão
condenadas pela moral pública, tais como a superioridade física, a
violência, a nobreza, a fortuna, ele faz justiça à teoria que daria à ciência
o governo das sociedades. Mesmo supondo que fosse possível
reconhecer, no conflito das ambições rivais e das intrigas, os pretensos e
os verdadeiros homens de ciência, e que se encontrasse um modo de
eleição que fizesse esgotar infalivelmente o poderio daqueles cujo saber
é autêntico, que garantia de sabedoria e de probidade em seu governo
poderiam eles nos oferecer? De antemão, não poderíamos, ao contrário,
prever entre estes novos senhores as mesmas loucuras e os mesmos
crimes que entre os senhores de outrora e os do tempo presente?
Inicialmente, a ciência não é: ela se faz. O homem de ciência do dia nada
mais é que o ignorante do dia seguinte. Basta que ele pense ter chegado
ao fim para, por isso mesmo, cair abaixo da criança que acaba de nascer.
Mas, tendo reconhecido a verdade em sua essência, não pode deixar de
se corromper pelo privilégio e corromper outros pelo comando. Para
assentar seu governo, ele deverá, como todos os chefes de Estado,
tentar parar a vida nas massas que se agitam abaixo dele, mantê-las na
ignorância para assegurar a calma, enfraquecê-los pouco a pouco para
dominá-los de uma altura maior.
De resto, desde que os "doutrinários" apareceram, o "gênio" verdadeiro
ou pretenso tenta tomar o cetro do mundo, e sabemos o que isto nos
custou. Nós vimos esses homens de ciência em ação, tanto mais
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insensíveis quanto mais estudaram, tanto menos amplos em suas idéias
quanto mais tempo passaram a examinar algum fato isolado sob todas as
suas faces, sem nenhuma experiência de vida, porque durante muito
tempo não tiveram outro horizonte senão as paredes de seu queijo,
pueris em suas paixões e vaidades, por não terem sabido tomar parte
nas lutas sérias, e nunca aprenderam a justa proporção das coisas. Não
vimos, recentemente, fundar-se uma escola de "pensadores", por sinal
vulgares bajuladores e pessoas de vida sórdida, que fizeram toda uma
cosmogonia para seu uso particular? Segundo eles, os mundos não
foram criados, as sociedades não se desenvolveram, as revoluções não
transformaram os povos, os impérios não desmoronaram, a miséria, a
doença e a morte não foram as rainhas da humanidade senão para fazer
surgir uma elite de acadêmicos, flor desabrochada, da qual todos os
outros homens nada mais são senão seu estrume. E a fim de que esses
redatores do Temps e dos Débats tenham o lazer de "pensar" que as
nações vivem e morrem na ignorância; os outros humanos são
consagrados à morte a fim de que estes senhores tornem-se imortais!
Mas podemos nos tranqüilizar: esses acadêmicos não terão a audácia de
Alexandre, cortando com sua espada o nó górdio; eles não erguerão o
gládio de Carlos Magno. O governo pela ciência torna-se tão impossível
quanto o do direito divino, o do dinheiro ou da força brutal. Todos os
poderes são, doravante, submetidos a uma crítica implacável. Homens
nos quais nasceu o sentimento de igualdade não se deixam mais
governar, aprendem a governar a eles mesmos. Precipitando do alto dos
céus aquele do qual todo poder era suposto descer, as sociedades
derrubam também todos aqueles que reinavam em seu nome. Tal é a
revolução que se realiza. Os Estados se deslocam para dar lugar a uma
nova ordem, na qual, assim como Bakunin gostava de dizer, "a justiça
humana substituirá a justiça divina". Se é permitido citar um nome entre
os revolucionários que colaboraram neste imenso trabalho de renovação,
não há nenhum que possamos assinalar com mais justiça do que o de
Mikhail Bakunin.
Carlo Cafiero, Elisée Reclus
Genebra, 1882

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