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Ao Correr da Pena José de Alencar


Título:
  
Ao Correr da Pena

Autor:  José de Alencar  

Categoria:  Literatura

Idioma:  Português





Fragmento do Texto


AO CORRER DA PENA
José de Alencar

(Crônicas publicadas no “Correio Mercantil”, de 3 de setembro de 1854 a 8 de julho de
1855, e no “Diário do Rio”, de 7 de outubro de 1855 a 25 de novembro do mesmo ano,

ambos os jornais do Rio de Janeiro).

P R I M E I R A P A R T E

FOLHETINS DO “CORREIO MERCANTIL”

(De 3 de setembro de 1854
a 8 de julho de 1855)

3 de setembro
O título que leva este artigo me lembra um conto de fada que se passou não há muito
tempo, e que desejo contar por muitas razões; porque acho-o interessante, porque me livra
dos embaraços de um começo, e me tira de uma grande dificuldade, dispensando-me da
explicação que de qualquer modo seria obrigado a dar. Há de haver muita gente que não
acreditará no meu conto fantástico; mas isto me é indiferente, convencido como estou de que
escritos ao correr da pena são para serem lidos ao correr dos olhos.
Um belo dia, não sei de que ano, uma linda fada, que chamareis como quiserdes, a
poesia ou a imaginação, tomou-se de amores por um moço de talento, um tanto volúvel como

de ordinário o são as fantasias ricas e brilhantes que se deleitam admirando o belo em todas as
formas. Ora, dizem que as fadas não podem sofrer a inconstância, no que lhes acho toda a
razão; e por isso a fada de meu conto, temendo a rivalidade dos anjinhos cá deste mundo,
onde os há tão belos, tomou as formas de uma pena, pena de cisne, linda como os amores, e
entregou-se ao seu amante de corpo e alma.
Não serei eu que desvendarei os mistérios desses amores fantásticos, e vos contarei as
horas deliciosas que corriam no silêncio do gabinete, mudas e sem palavras. Só vos direi e
sito mesmo, é confidência, que, depois de muito sonho e de muita inspiração, a pena se
lançava sobre o papel, deslizava docemente, brincava como uma fade que era, bordando as
flores mais delicadas, destilando perfumes mais esquisitos que todos os perfumes do Oriente.
As folhas se animavam ao seu contato, a poesia corria em ondas de ouro, donde saltavam
chispas brilhantes de graça e espírito.
Por fim, a desoras, quando já não havia mais papel, quando a luz a morrer apenas
empalidecia as sombras da noite, a pena trêmula e vacilante caía sobre a mesa sem forças e
sem vida, e soltava uns acentos doces, notas estremecidas como as cordas da harpa ferida
pelo vento. Era o último beijo da fada que se despedia, o último canto do cisne moribundo.
Assim se passou muito tempo; mas já não há amores que durem sempre,
principalmente em dias como os nossos, nos quais o símbolo de constância é uma borboleta.
Acabou o poema fantástico no fim de dois anos; e um dia o herói do meu conto, chamado a
estudos mais graves, lembrou-se de um amigo obscuro, e deu-lhe a sua pena de ouro. O outro
aceitou-a como um depósito sagrado; sabia o que lhe esperava, mas era um sacrifício que
devia à amizade, e por conseguinte prestou-se a carregar aquela pena, que já adivinhava havia
de ser para ele como uma cruz pesada que levasse ao calvário.
Com efeito, a fada tinha sofrido uma mudança completa: quando a lançavam sobre a
mesa, só fazia correr. Havia perdido as formas elegantes, os meneios feiticeiros, e deslizava
rapidamente sobre o papel sem aquela graça e faceirice de outrora. Já não tinha flores nem
perfumes, e nem centelhas de ouro e de poesia: eram letras, e unicamente letras, que nem
sequer tinham o mérito de serem de praça, que serviria de consolo ao espírito mais
prosaico.Por fim de contas, o outro, depois de riscar muito papel e de rasgar muito original,
convenceu-se que, a escrever alguma coisa com aquela fada que o aborrecia, não podia ser de
outra maneira senão – Ao correr da pena

Ao Correr da Pena José de Alencar



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