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7 poemas incríveis de Gonçalves Dias | Literatura Brasileira

A Leviana, de Gonçalves Dias. Um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira —, o curto poema épico I-Juca-Pirama e muitos outros poemas nacionalistas e patrióticos, além de seu segundo mais conhecido poema chamado: Cancões de Exílio 


A Leviana, de Gonçalves Dias.

A Leviana



Souvent femme varie,
Bien fol est qui s'y fie.
-- Francisco I


És engraçada e formosa
Como a rosa,
Como a rosa em mês d'Abril;
És como a nuvem doirada
Deslizada,
Deslizada em céus d'anil.

Tu és vária e melindrosa,
Qual formosa
Borboleta num jardim,
Que as flores todas afaga,
E divaga
Em devaneio sem fim.

És pura, como uma estrela
Doce e bela,
Que treme incerta no mar:
Mostras nos olhos tua alma
Terna e calma,
Como a luz d'almo luar. 

Tuas formas tão donosas,
Tão airosas,
Formas da terra não são;
Pareces anjo formoso,
Vaporoso,
Vindo da etérea mansão.

Assim, beijar-te receio,
Contra o seio
Eu tremo de te apertar:
Pois me parece que um beijo
É sobejo
Para o teu corpo quebrar.

Mas não digas que és só minha!
Passa asinha
A vida, como a ventura;
Que te não vejam brincando,
E folgando
Sobre a minha sepultura.

Tal os sepulcros colora
Bela aurora
De fulgores radiante;
Tal a vaga mariposa
Brinca e pousa
Dum cadáver no semblante. 



Gonçalves Dias
Primeiros Cantos



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O Soldado Espanhol, de Gonçalves Dias. Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo", é famoso por ter escrito o poema "Canção do Exílio" (Wikipedia)


O Soldado Espanhol, de Gonçalves Dias.

O Soldado Espanhol


Un soldat au dur visage
-- V. Hugo


I

Oh! qui révélera les troubles, les mystères
Que ressentent d'abord deux amants solitaires
Dans l'abandon d'un chaste amour?
-- Amour et Foi

O céu era azul, tão meigo e tão brando,
A terra tão erma, tão quieta e saudosa,
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa.

O céu era azul, e na cor semilhava
Vestido sem nódoa de pura donzela;
E a terra era a noiva que bem se arreava
De flores, matizes; mas vária, mas bela.

Ela era brilhante,
Qual raio do sol;
E ele arrogante,
De sangue espanhol.

E o espanhol muito amava
A virgem mimosa e bela;
Ela amante, ele zeloso
Dos amores da donzela; 
Ele tão nobre e folgando
De chamar-se escravo dela!

E ele disse: - Vês o céu? -
E ela disse: - Vejo. sim;
Mais polido que o polido
Do meu véu azul cetim. -
Torna-lhe ele. .. (oh! quanto é doce
Passar-se uma noite assim!).

- Por entre os vidros pintados
D'igreja antiga, a luzir
Não vês luz? - Vejo. - E não sentes
De a veres, meigo sentir?
- É doce ver entre as sombras
A luz do templo a luzir!

- E o mar, além, preguiçoso
Não vês tu em calmaria?
- É belo o mar; porém sinto,
Só de o ver, melancolia.
- Que mais o teu rosto enfeita
Que um sorriso de alegria.

- E eu tão bem acho em ser triste
Do que alegre, mais prazer;
Sou triste, quando em ti penso,
Que só me falta morrer;
Mesmo a tua voz saudosa
Vem minha alma entristecer.

- E eu sou feliz, como agora,
Quando me falas assim;
Sou feliz quando se riem
Os lábios teus de carmim;
Quando dizes que me, adoras,
Eu sinto o céu dentro em mim.

- És tu só meu Deus, meu tudo,
És tu só meu puro amar,
És tu só que o pranto podes
Dos meus olhos enxugar. -
Com ela repete o amante:
- És tu só meu puro amar! -

E o céu era azul, tão meigo e tão brando
E a terra tão erma, tão só, tão saudosa,
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa!


II

Ainsi donc aujourd'hui, demain, après encore,
Il faudra voir sans tal naître et mourir l'aurore! 

-- V. Hugo

E o espanhol viril, nobre e formoso,
No bandolim
Seus amores dizia mavioso,
Cantando assim:

"Já me vou por mar em fora
Daqui longe a mover guerra,
Já me vou, deixando tudo,
Meus amores, minha terra.

"Já me vou lidar em guerras,
Vou-me a Índia ocidental;
Hei de ter novos amores. . .
De guerras... não temas al.

"Não chores, não, tão coitada,
Não chores por t'eu deixar;
Não chores, que assim me custa
O pranto meu sofrear.

"Não chores! - sou como o Cid
Partindo para a campanha;
Não ceifarei tantos louros,
Mas terei pena tamanha."

E a amante que assim o via
Partir-se tão desditoso,
- Vai, mas volta; lhe dizia:
Volta, sim, vitorioso.

"Como o Cid, oh! crua sorte
Não me vou nesta campanha
Guerrear contra o crescente,
Porém sim contra os d'Espanha!

"Não me aterram; porém sinto
Cerrar-se o meu coração,
Sinto deixar-te, meu anjo,
Meu prazer, minha afeição.

"Como é doce o romper d'alva,
É-me doce o teu sorrir,
Doce e puro, qual d'estrela
De noite - o meigo luzir.

"Eram meus teus pensamentos,
Teu prazer minha alegria,
Doirada fonte d'encantos,
Fonte da minha poesia.

"Vou-me longe, e o peito levo
Rasgado de acerba dor, 
Mas comigo vão teus votos,
Teus encantos, teu amor!

"Já me vou lidar em guerras,
Vou-me a Índia ocidental;
Hei de ter novos amores. . .
De guerras... não temas al."

Esta era a canção que acompanhava
No bandolim,
Tão triste, que de triste não chorava
Dizendo assim:

III

O Conde deu o sinal da partida
- À caça! meus amigos.
-- Burger

"Quero, pajens, selado o ginete,
Quero em punho nebris e falcão,
Qu'é promessa de grande caçada
Fresca aurora d'amigo verão.

"Quero tudo luzindo, brilhante
- Curta espada e venab'lo e punhal,
Cães e galgos farejem diante
Leve odor de sanhudo animal.

"E ai do gamo que eu vir na coutada,
Corça, onagro, que eu primo avistar!
Que o venab'lo nos ares voando
Lhe há de o salto no meio quebrar.

Eia, avante! - Dizia folgando
O fidalgo mancebo, loução:
- Eia, avante? - e já todos galopam
Trás do moço, soberbo infanção.

E partem, qual do arco arranca e voa
Nos amplos ares, mais veloz que a vista,
A plúmea seta da entesada corda.
Longe o eco reboa: - já mais fraco,
Mais fraco ainda, pelos ares voa.
Dos cães dúbio o latir se escuta apenas,
Dos ginetes tropel, rinchar distante
Que em lufadas o vento traz por vezes.
Já som nenhum se escuta... Quê? - latido
De cães, incerto, ao longe? Não, foi vento
Na torre castelã batendo acaso,
Nas seteiras acaso sibilando
Do castelo feudal, deserto agora. 


IV

Vois, à l'horizon
Aucune maison?
- Aucune.
-- V. Hugo

Já o sol se escondeu; cobre a terra
Belo manto de frouxo luar;
E o ginete, que esporas atracam,
Nitre e corre sem nunca parar.
Da coutada nas ínvias ramagens
Vai sozinho o mancebo infanção;
Vai sozinho, afanoso trotando
Sem temores, sem pajens, sem cão.
Companheiros da caça há perdido,
Há perdido no aceso caçar;
Há perdido, e não sente receio
De sozinho, nas sombras trotar.
Corno ebúrneo embocou muitas vezes,
Muitas vezes de si deu sinal;
Bebe atento a resposta, e não ouve
Outro som responder-lhe; inda mal!
E o ginete que esporas atracam,
Nitre e corre sem nunca parar;
Já o sol se escondeu, cobre a terra
Belo manto de frouxo luar.


V
De rosée
Arrosée.
La rose a moins de fraîcheur.
-- Henrique IV

Silêncio grato da noite
Quebram sons duma canção,
Que vai dos lábios de um anjo
Do que escuta ao coração.

Dizia a letra mimosa
Saudades de muito amar;
E o infanção enleiado 
Atento, pôs-se a escutar.

Era encantos voz tão doce,
Incentivo essa ternura,
Gerava delícias n'alma
Sonhar d'havê-la a ventura.

Queixosa cantava a esposa
Do guerreiro que partiu,
Largos anos são passados,
Missiva dele não viu. . .

Parou!... escutando ao perto
Responder-lhe outra canção!...
Era terna a voz que ouvia,
Lisonjeira - do infanção:

"Tenho castelo soberbo
Num monte, que beija um rio,
De terras tenho no Doiro
Jeiras cem de lavradio;

"Tenho lindas haquenéias,
Tenho pajens e matilha,
Tenho os milhores ginetes
Dos ginetes de Sevilha;

"Tenho punhal, tenho espada
D'alfageme alta feitura,
Tenho lança, tenho adaga,
Tenho completa armadura.

"Tenho fragatas que cingem
Dos mares a linfa clara,
Que vão preiando piratas
Pelas rochas de Megara.

"Dou-te o castelo soberbo
E as terras do fértil Doiro,
Dou-te ginetes e pajens
E a espada de pomo d'oiro.

"Dera a completa armadura
E os meus barcos d'alto-mar,
Que nas rochas de Megara
Vão piratas cativar.

"Fala de amores teu canto,
Fala de acesa paixão. . .
Ah! senhora, quem tivera
Dos agrados teus condão!

"Eu sou mancebo, sou Nobre,
Sou nobre moço infanção;
Assim podesse o meu canto
Algemar-te o coração,
Ó Dona, que eu dera tudo
Por vencer-te essa isenção!

Atenta escutava a esposa
Do guerreiro que partiu,
Largos anos são passados,
Missiva dele não viu;
Mas da letra que escutava
Delícias n'alma sentiu.


VI

Si tu voulais, Madeleine,
Je te ferais châtelaine;
Je suis le comte Roger: -
Quitte pour moi ces chaumières,
A moins que tu me préfères
Que je me fasse berger.
-- V. Hugo

E noutra noite saudoso
Bem junto dela sentado,
Cantava brandas endechas
O gardingo namorado.

"Careço de ti, meu anjo,
Careço do teu amor,
Como da gota d'orvalho
Carece no prado a flor.

"Prazeres que eu nem sonhava
Teu amor me fez gozar;
Ah! que não queiras, senhora,
Minha dita rematar.

"O teu marido é já morto,
Notícia dele não soa;
Pois desta gente guerreira
Bastos ceifa a morte à toa.

"Ventura me fora ver-te
Nos lábios teus um sorriso,
Delícias me fora amar-te,
Gozar-te meu paraíso.

"Sinto aflição, quando choras;
Se te ris, sinto prazer;
Se te ausentas, fico triste,
Que só me falta morrer.

"Careço de ti, meu anjo,
Careço do teu amor, 
Como da gota d'orvalho
Carece no prado a flor."

VII

L'époux, dont nul ne se souvient,
Vient;
Il va punir ta vie infâme,
Femme!
-- V. Hugo

Era noite hibernal; girava dentro
Da casa do guerreiro o riso, a dança,
E reflexos de luz, e sons, e vozes,
E deleite, e prazer: e fora a chuva,
A escuridão, a tempestade, e o vento,
Rugindo solto, indômito e terrível
Entre o negror do céu e o horror da terra.
Na geral confusão os céus e a terra
Horrenda simpatia alimentavam.

Ferve dentro o prazer, reina o sorriso,
E fora a teritar, fria, medonha,
Marcha a vingança pressurosa e torva:
Traz na destra o punhal, no peito a raiva,
Nas faces palidez, nos olhos morte.
O infanção extremoso enchia rasa
A taça de licor mimoso e velha,
Da usança ao brinde convidando a todos
Em honra da esposada: - À noiva! exclama.

E a porta range e cede, e franca e livre
Introduz o tufão, e um vulto assoma
Altivo e colossal. - Em honra, brada,
Do esposo deslembrado! - e a taça empunha,
Mas antes que o licor chegasse aos lábios,
Desmaiada e por terra jaz a esposa,
E a destra do infanção maneja o ferro,
Por que tão grande afronta lave o sangue,
Pouco, bem pouco para injúria tanta.
Debalde o fez, que lhe golfeja o sangue
D'ampla ferida no sinistro lado,
E ao pé da esposa o assassino surge
Co'o sangrento punhal na destra alçado.

A flor purpúrea que matiza o prado,
Se o vento da manhã lhe entorna o cálix,
Perde aroma talvez; porém mais belo
Colorido lhe vem do sol nos raios.
As fagueiras feições daquele rosto
Assim foram tão bem; não foi do tempo
Fatal o perpassar às faces linda
Nota-lhe ele as feições, nota-lhe os lábios,
Os curtos lábios que lhe deram vida,
Longa vida de amor em longos beijos,
Qual jamais não provou; e as iras todas
Dos zelos vingadores descansaram
No peito de sofrer cansado e cheio,
Cheio qual na praia fica a esponja,
Quando a vaga do mar passou sobre ela.

Num relance fugiu, minaz no vulto:
Como o raio que luz um breve instante,
Sobre a terra baixou, deixando a morte. 

Gonçalves Dias
Primeiros Cantos



NÃO ME DEIXES


Debruçada nas águas dum regato
               A flor dizia em vão
A corrente, onde bela se mirava...
            “Ai, não me deixes, não!

“Comigo fica ou leva-me contigo”
           “Dos mares à amplidão,
“Límpido ou turvo, te amarei constante
          “Mas não me deixes, não!”

E a corrente passava, novas águas
        Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
       “Ai, não me deixes, não!”

E das águas que fogem incessantes
         À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
         “Ai, não me deixes, não!”

Por fim desfalecida e a cor murchada,
         Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
         Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
           Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
          “Não me deixaste, não!”


Gonçalves Dias
Cantos Novos

não me deixes, gonçalves dias

Fonte



O HOMEM FORTE


O modesto varão constante e justo
Pensa e medita nas lições dos sábios
E nos caminhos da justiça eterna
Gradua firme os passos.

O brilho da sua lama não mareia
A luz do sol, nem do carvão se tisna;
Morre pelo dever, austero e crente,
Confessando a virtude.

Pode a calúnia denegrir seus feitos,
Negar-lhe a inveja o mérito subido;
Pode em seu dano conspirar-se o mundo
E renegá-lo a pátria!

Tão modesto no paço de Lóculo
Como encerrado no tonel do Grego,
Nem o transtorna a aragem da ventura,
Nem a desgraça o abate.

A tiranos preceitos não se humilha,
Ante o ferro do algoz não curva a fronte,
Não faz calar da consciência o grito,
Não nega os seus princípios.

Antes, seguro e firme e confiado
No tempo, vingador das injustiças,
Co’s pés no cadafalso e a vista erguida
Se mostra imperturbável.

Sofre mártir e expira! A pátria em torno
Do seu sepulcro o chora, onde a virtude, 
Afeita ao luto e à dor, de novo carpe
Do justo a flébil morte


Gonçalves Dias
Novos Cantos


O Homem Forte, Gonçalves Dias


Fonte
Portal Domínio Público


O Canto do Guerreiro.  foi um poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro. Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo (Wikipedia)


O Canto do Guerreiro.


O Canto do Guerreiro.




O Canto do Guerreiro

I
Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
- Ouvi-me, Guerreiros.
- Ouvi meu cantar.

II
Valente na guerra
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
- Guerreiros, ouvi-me;
- Quem há, como eu sou?

III
Quem guia nos ares
A frecha imprumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
- Guerreiros, ouvi-me,
- Ouvi meu cantar.

IV
Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
- Guerreiros, ouvi-me:
- Quem há, como eu sou?

V
Na caça ou na lide,
Quem há que me afronte?!
A onça raivosa
Meus passos conhece, 
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céu.
- Quem há mais valente,
- Mais destro do que eu?

VI
Se as matas estrujo
Co os sons do Boré,
Mil arcos se encurvam,
Mil setas lá voam,
Mil gritos reboam,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
- Quem é mais valente,
- Mais forte quem é?

VII
Lá vão pelas matas;
Não fazem ruído:
O vento gemendo
E as malas tremendo
E o triste carpido
Duma ave a cantar,
São eles - guerreiros,
Que faço avançar.

VIII
E o Piaga se ruge
No seu Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frechados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viveram,
Mil homens são lá.

IX
E então se de novo
Eu toco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal eles se escoam
Aos sons do Boré.
- Guerreiros, dizei-me,
- Tão forte quem é? 


Gonçalves Dias 
Primeiros Cantos


Poema - A Flor do Amor, de Gonçalves Dias. Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo", é famoso por ter escrito o poema "Canção do Exílio" — um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira (Wikipedia)



Poema - A Flor do Amor, de Gonçalves Dias


A FLOR DO AMOR



já lento o passo, no cair da tarde,

Lá nos desertos d’abrasada areia,
Que o vento agita, porém não recreia,
da caravana o condutor parou.
Armam-se à pressa tendas alvejante,
Rumina plácido o frugal camelo;
Porém a nuvem d’árabes errantes
Se achega à presa, que de longe olhou.



E já, tomada a refeição noturna,

Junto a fogueira, que derrama vida,
Descansam todos da penosa lida
À voz canora, que o cantor alçou!
Confuso o ouvido um burburinho alcança,
As armas toma o árabe prudente;
Mas logo pensa, rejeitando a lança:
“Foi o grunhido que o chacal soltou.”



Ouvidos todo e curioso enlevo,

torna de novo a retomar seu posto;
Pela fogueira alumiado o rosto,
Bebendo as vozes que o cantor soltou;
Simelha a terra, quando aberta em fendas
Da noite o orvalho sequiosa espera;
E o corcel árabe encostado às tendas
Os sons lhe escuta, e de os ouvir folgou.



“Algures cresce (o trovador cantava)

Sempre fresca e virente e sempre bela,
Por influxo e poder de maga estrela,
Mimosa, pura e delicada flor!
Jazendo em sítio escuso e solitário,
Esforços é mister p’ra conhece-la,
Que diz a forte lei do seu fadário
Que a não descubra acaso o viajor. 



“Alva do albor dos lírios odorosos,

Tem a modéstia da violeta esquiva,
e o pronto retrair da sensitiva,
Que parece vestir-se de pudor!
Assim, à luz da cambiante aurora,
Mudando um poço a resplendente alvura,
De uns toque de carmim s’esmalta e cora
A graciosa e pudibunda flor.



“Faz-me mais puro o ar, mais brando o clima,

Onde cresce; amenizam-se os lugares,
Tornam-se menos agros os pesares
E menos viva, e quase nula a dor;
Fresca e branda alcatifa o chão matiza,
Com doce murmúrio as aguas correm,
e o leve sopro do correr da brisa
Volúpia embebe em mágico frescor!



“Feliz aquele que a encontrou na vida,

Que onde ela nasce tímida e fagueira
Não s’enovela a mó d’atra poeira,
Tangida pelo simum abrasador!
Ali sorri-se oásis venturoso,
Qu’entre deleites o viver matiza,
E ao que vai triste, aflito e sem repouso
Chama a descanso de comprido error!



“Feliz e mais que se, perdido, achara

Conforto e auxilio no catá, seu guia,
Que o leva a fonte perenal e fria
Onde se apaga o sitibundo ardor.
Tão feliz, qual talvez se o precedesse
Que por fanal noturno lhe acendesse
Maga estrela de límpido fulgor.



“Ai! porém do que a vê, e a não conhece,

Do que a suspira em vão, e a em vão procura,
Ou que achando-a, desiste da ventura
Por não entrar no oásis sedutor.
Essa flor descoberta por acerto
Nunca mais a verás! colhe, insensato,
Colhe abrolhos da vida no deserto;
Pois desprezaste a que produz o amor!”



Assim cantava o trovador; e todos

Ouvem-no com prazer de dor travado,
Que mais do que um talvez terá deixado
Atrás de si a pudibunda flor!
No entanto a nuvem d’árabes errantes
Chega-se à presa, que avistou de longe;
E dos corcéis, que alentam ofegante,
Precede a marcha túrbido pavor!



E, nado o sol, aquele que passava

Pelos desertos d’abrasada areia,
Que o rubro sangue de cruor roxeia,
A um lado o rosto pálido, voltou!
Ninguém as mortes lastimáveis chora,
Ninguém recolhe os restos insepultos,
E o mesmo orvalho, que goteja a aurora,
Sem borrifa-los, no areal ficou



Quem saberá do seu destino agora?

Ninguém! Somente em climas apartados
Miseranda mulher lastima os fados
De filho ou esposo, que jamais tornou!
Talvez porém, trás de montões d’areia,
Nobre corcel sem cavaleiro assoma,
E alonga avista, de pesares cheia,
Te onde a vida seu senhor deixou! 

Gonçalves Dias


O Canto do Piaga, de Gonçalves Dias. A sua obra enquadra-se no Romantismo, pois, a semelhança do que fizeram os seus correlegionários europeus, procurou formar um sentimento nacionalista ao incorporar assuntos, povos e paisagens brasileiras na literatura nacional. (Wikipedia) 

O Canto do Piaga, de Gonçalves Dias.

O Canto do Piaga


I
Ó GUERREIROS da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribu Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.

Esta noite - era a lua já morta -
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodígios que vil
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o acendi!

Eis rebenta a meus pés um fantasma,
Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.

O meu sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro - ossos, carnes - tremi,
Frio horror me coou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!

II

Por que dormes, Ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a falar,
Por que dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.

Tu não viste nos céus um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?

Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem - vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?

E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te proíbe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não podes augúrios cantar?! 

Ouve o anúncio do horrendo fantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugiram da Taba!
Ó desgraça! Ó ruína! Ó Tupá!

III

Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, i vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas tais monstros contêm.

Traz embira dos cimos pendente
- Brenha espessa de vário cipó -
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Tais e quais, mas com folhas; é so!

Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas asas abrindo ao tufão,
Como um bando de cândidas garças,
Que nos ares pairando - lá vão.

Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro... - o que vem cá buscar?

Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade -
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.

Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribu Tupi vai gemer;
Hão-de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser?

Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.

Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugiram da Taba,
Ó desgraça! ó ruína!! ó Tupá! 


Gonçalves Dias
Primeiros Cantos



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