Cláudio Manuel da Costa em quatro Poemas

Cláudio Manuel da Costa escritor brasileiro que, segundo o site Wikipedia, destacou-se pela sua obra poética e pelo seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Foi também advogado de prestígio, fazendeiro abastado, cidadão ilustre, pensador de mente aberta e amigo do Aleijadinho, a quem teria possibilitado o acesso às bibliotecas clandestinas que seriam mais tarde apreendidas aos Inconfidentes

CANTO HERÓICO


Ao Ilmo. e Exmo. Sr. D. Antônio de Noronha, na ocasião em que os movimentos da Guerra do Sul o obrigaram a marchar para o Rio de janeiro com as tropas de Minas Gerais.
Jam nunc minaci murmure cornuum
Perstringis aures, jam litui strepunt
Jam fulgor armorum fugaces
Terret equos, equitumque vultus.
HORÁCIO. lib. 2, od. 1a.

Marte feroz, que com semblante irado
Influís nos mortais a dura guerra,
Sofre que a teus ouvidos chegue o brado
Da minha aflita, e magoada Terra:
A paz tranqüila e o sereno estado
Do nosso bem por ti já se desterra;
Por ti eu vejo que a discórdia crua
Sacode as serpes da madeixa sua.

2
Busca a ardente fornalha o ferro que antes
De útil arado ao lavrador servia;
Punhais agudos, lanças penetrantes
Levam na mão, que os rege a morte fria:
Ouvem-se as vozes dos clarins vagantes,
Soa da caixa a fúnebre harmonia,
Guerra, guerra, publica o eco horrendo,
Que os montes fere, os vales vai rompendo.

3
Deixa da amada esposa o casto leito
O saudoso pai, que o filho adora,
E do amor e da honra ao vário efeito,
Desperta a um tempo, e ao mesmo tempo chora;
Fugi, mortais, que o palpitante peito
Treme e se gela; a Fama vencedora
De longe vos acena, e vos convida;
Mas de sangue e de pó será tingida.

4
Céus, e como inda anima a idéia infame
Um concelho tão vil? Que influxo impuro
Me arrebata, e me obriga a que vos chame
Ao letargo infeliz de um veio escuro?
A glória ilustre, a glória vos inflame
De sustentar de vossa Pátria o muro,
De ver a vossos pés o orgulho fero,
Com que vos ameaça o ferro ibero.

5
Noronha é que vos guia. Ele na frente
Dos Reais Esquadrões empunha a espada,
Aquela espada que inda fuma quente
Do sangue hispano, em que já foi banhada;
Dos preclaros Avós, quando pendente,
Se viu da Fama na imortal morada;
Ela inspira neste Herói o exemplo,
Que bem desempenhado hoje contemplo.

6
Se buscais da Vitória um fausto agoiro,
Eu vo-lo posso dar: entrai comigo
A registar o Templo; vede o Loiro
De tanto egrégio resplandor antigo;
Aquele respeitável busto de oiro
Guarda o Primeiro Pedro, o Rei amigo;
O Quinto Afonso os seus serviços mede
No Condado feliz de Cantanhede.

7
Derivando-se a rama esclarecida
Dos ilustres, esplêndidos Menezes,
Por um Jorge, um João, e outros que a vida
Perderam entre os bélicos arneses,
Vede no grande Antônio enriquecida
De mil troféus a glória; este que as vezes
Sustenta do Primeiro, em prêmio prova,
Por mão do Rei Felipe, a mercê nova.

8
Passa o título a Antônio, e já respira
Neste Conde imortal a glória rara
Do excelso Marquesado; o Rei admira
Crescer a estirpe majestosa e clara:
De ramo em ramo se dilata e gira
O régio adorno, que a Fortuna ampara;
Grandes são todos, e a maior grandeza
É das virtudes a feliz nobreza.

9
Menezes e Noronhas vêm ligados
Em laço ilustre, e de mil Reis a glória
Se vê reproduzir nestes traslados,
Que os fastos enchem já da Lusa História:
Nas bélicas empresas aprovados,
Oh! e quanto distintos na memória
Eu os encontro, eu os adoro, e vejo,
Se busco o Ganges, se demando o Tejo!

10
África o diga em dessolados rumes?
De frios ossos alvejando as praias;
Digam-no de Ásia aos cortadores gumes,
Rasas no campo, as Legiões cambaias.
Semideuses da terra e dignos Numes
Os viu o Tejo nas frondosas raias;
Em Montes Claros e Elvas inda soa
O clarim, que as vitórias apregoa.

11
Que parte o mundo em seus limites conta,
Que de tantos Heróis não honre, e guarde
As preclaras ações? Febo as apontar
Onde nasce, onde morre, e onde mais arde.
Se a um e a outro hemisfério se remonta
A glória sua, a nós se não retarde
A ventura de vermos neste Estado
Por um Noronha o nosso bem firmado.

12
Antônio, o grande Antônio é quem segura
Das Pátrias Minas o feliz distrito,
Por ele a mão da próvida Ventura
Tem o nosso prazer em bronze escrito:
Dos férteis campos, que talar procura
O soberbo espanhol, eu já medito
Que livres do temor, do pranto enxutos,
Nós passaremos a colher os frutos.

13
Então de palmas a coberta estrada
Aos seus triunfos abrirá caminho,
Mil vivas entoando a Esquadra armada,
Desde o Rio da Prata a Doiro e Minho.
Pender veremos da luzenta espada
Ricos despojos, que o curvado Pinho
Farão gemer; veremos como torna
Cheio de loiros, de que a testa adorna.

14
Parte, valente Herói, parte, e a teu mando
Ajunta um corpo de rendidos peitos,
Que então são dignos de seguir-te, quando
Amam da glória os imortais respeitos;
Teu nome, o vôo sobre a Fama dando,
Passe do mundo os âmbitos estreitos;
E além da meta que o Tebano assina
Firma o brasão da Lusitana Quina.

15
Cândida nuvem desde os Céus desata
A abundância, o prazer, e a alegria;
Sereno o aspecto da Fortuna ingrata,
Longe de nós Remnúsia se desvia.
Não é engano, que a ilusão dilata
Na fecunda, ociosa fantesia;
Eu o vejo, eu o sinto, e já se apressa
A feliz hora, e a estação começa.

16
Correi de leite, e mel, ó pátrios rios,
E abri dos seios o metal guardado;
Os borbotões de prata, e de oiro os fios
Saiam do Luso a enriquecer o estado;
Intratáveis penedos, montes frios,
Deixai ver as entranhas, onde o Fado
Reserva pela mão do Herói mais nobre
Dar ao mundo os tesoiros que inda encobre.

17
Verdes, negros Tritões tecendo a amarra
Prendam no Tejo as carregadas Frotas
Que vêm buscando a Lusitana Terra,
Lá desde o seio das regiões remotas;
O Hispano Leão curvando a garra
Trema de espanto, e nas entranhas rotas
Sinta o furor da macilenta inveja,
Que o rói, e morde, e em devorar forceja.

18
Mas eu, que me dilato ou me detenho
Nas imagens de auspício tão ditoso,
Se a profética luz em desempenho
Transpira já no quadro luminoso?
Já desde o Porto o desatado Lenho?
Ao triunfante Herói recebe ansioso,
Já pouco a pouco o vento, abrindo as velas,
Foge do Pátrio Rio às praias belas.

19
Parte, valente Herói, mas deixa entanto
Que te chore o País deserto e triste!
Quanto é pesada a tua ausência, e quanto
Ela debalde a tanta dor resiste!
Permite ao menos que o saudoso pranto
Te acompanhe e te siga, e se já viste
De ũa muda eloqüência o ardente efeito,
Rende à ternura o resoluto peito.

28
Mas desde o Hebro desatar o Pinho,
Qual fero Jarba a disputar Cartago;
Do parente, do amigo e do vizinho
Tentar o golpe e fulminar o estrago;
Fazer do Elísio ao imortal caminho
Tantas almas de Heróis cruzar o lago
Do frio Lete... ah! que o teu nome eu vejo
Andar aos netos com vergonha, e pejo!

29
Se a impulsos de um furor corre inimigo
Teu braço a provocar-nos, eu te juro
Que vejas renascer o esforço antigo
Que tantas vezes te atacou seguro:
Traze em memória o mísero castigo
Daquele pacto que te achou perjuro,
Vê se os trezentos Fábios inda alenta
A série augusta dos Varões quarenta.

30
Lembre-te que de todo enfraquecido
O Reino estava, e qual Anteu gigante
Com mais forças pulou do chão erguido
A restaurar o cetro vacilante:
Lembre-te que entre os poucos do partido
Nenhum tão digno de que a Fama o cante
Como um Pedro Menezes. Tens presente
No grande Antônio o sucessor valente.



Romances: Lise, de Cláudio Manuel da Costa. Destacou-se pela sua obra poética e pelo seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Foi também advogado de prestígio, fazendeiro abastado, cidadão ilustre, pensador de mente aberta e amigo do Aleijadinho (Wikipedia)
Romances: Lise, de Cláudio Manuel da Costa





ROMANCES - L I S E


ROMANCE I


Pescadores do Mondego,
Que girais por essa praia,
Se vós enganais o peixe,
Também Lise vos engana.

Vós ambos sois pescadores;
Mas com diferença tanta,
Vós ao peixe armais com redes,
Ela co'olhos vos arma.

Vós rompeis o mar undoso:
Para assegurar a caça;
Ela aqui no porto espera,
Para lograr a filada.

Vós dissimulais o enredo,
Fingindo no anzol a traça;
Ela vos expõe patentes
As redes, com que vos mata.

Vós perdeis a noite, e dia
Em contínua vigilância;
Ela em um só breve instante
Consegue a presa mais alta.

Guardai-vos, pois, pescadores,
Dos olhos dessa tirana;
Que para troféus de Lise
Despojos de Alcemo bastam.

Enquanto as ondas ligeiras
Desta corrente tão clara
Inundarem mansamente
Estes álamos, que banham;

Eu espero, que a memória
O conserve nestas águas,
Por padrão dos desenganos,
Por triunfo de uma ingrata.

E na frondosa ribeira
Deste rio, triste a alma
Girará sempre avisando,
Quem lhe soube ser tão falsa.


Cláudio Manuel da Costa



Altéia - Romance III - Cláudio Manuel da Costa. Cláudio Manuel da Costa (Vila do Ribeirão do Carmo, Minas Gerais, 5 de junho de 1729 — Vila Rica, Minas Gerais, 4 de julho de 1789) foi um advogado, minerador e poeta português do Brasil Colônia. (Wikipedia)

Altéia - Romance III - Cláudio Manuel da Costa

ALTÉIA - ROMANCE III



Aquele pastor amante,
Que nas úmidas ribeiras
Deste cristalino rio
Guiava as brancas ovelhas;

Aquele, que muitas vezes
Afinando a doce avena,
Parou as ligeiras águas,
Moveu as bárbaras penhas;

Sobre uma rocha sentado
Caladamente se queixa:
Que para formar as vozes,
Teme, que o ar as perceba.

Os olhos levanta, e busca
Desde o tosco assento aquela
Distancia, aonde, discorro,
Que tem a origem da pena:

E depois que esmorecidos
Da dor os olhos, na imensa
Explicação do tormento,
Sufocada a luz, se cegam;

Só às lágrimas recorre,
Deixando-se ouvir apenas
Daquelas árvores mudas,
Daquela mimosa relva!

Com torpe aborrecimento
A companhia despreza
Dos pastores, e das ninfas;
Nada quer; tudo o molesta.

Erguido sabre o penhasco
Já vê, se é grande a eminência:
Por que busque o fim da vida,
Na violência de uma queda.

Já louco se precipita;
E já se suspende: a mesma
Apetência do tormento
Maior tormento lhe ordena.

Pastores, vêde a Daliso;
Vede o estado qual seja
De um pastor, que em outro tempo
Glória destes montes era:

Vêde, como sem cuidado
Pastar pelos montes deixa
As ovelhas oferecidas
As iras de qualquer fera.

Vêde, como desta rama,
Que fúnebre está, suspensa
Deixou a lira, que há pouco,
Pulsava pela floresta.

Vêde, como já não gosta
Da barra, dança, e carreira;
E ao pastoril exercício
De todo já se rebela.

Segundo o volto, que neste
Rústico penedo ostenta,
Cuido, que o fizeram louco
Desprezos da bela Altéia.

Cláudio Manuel da Costa

Antandra - Romance II - Cláudio Manoel da Costa. Como poeta, transitou entre o Barroco - marca dos seus escritos de juventude, enquanto era estudante de Cânones na Universidade de Coimbra (1749) - e o arcadismo - a partir do seu contato com o iluminismo, que concebia práticas mais racionais nas belas-letras (Wikipedia)


Antandra - Romance II - Cláudio Manoel da Costa



ANTANDRA - ROMANCE II


Pastora do branco arminho,
Não me sejas tão ingrata:
Que quem veste de inocente,
Não se emprega em matar almas.

Deixa o gado, que conduzes;
Não o guies à montanha:
Porque em poder de uma fera,
Não pode haver segurança.

Mas ah! Que o teu privilégio,
É louco, quem não repara:
Pois suavizando o martírio,
Obrigas mais, do que matas.

Eu fugirei; eu, pastora,
Tomarei somente as armas;
E hão de conspirar comigo
Todo o campo, toda a praia.

Tenras ovelhas,
Fugi de Antandra;
Que é flor fingida,
Que áspides cria, que venenos guarda.


Cláudio Manoel da Costa


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