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5 Obras Clássicas de Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro Após Memórias Póstumas de Brás Cubas, sucedem-se diversas escritas de contos cuja estética é vista como "mais madura" e cujos temas são mais ousados. Os mais famosos e estudados, "A Causa Secreta", "Capítulos dos Chapéus", "A Igreja do Diabo" (Wikipedia)


Adão e Eva, de Machado de Assis

1 - Adão e Eva

Machado de Assis


UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e

tantos, tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas,
grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a
dona da casa chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam
todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a
responsabilidade da perda do paraíso devia caber a Eva ou a Adão. As
senhoras diziam que a Adão, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora,
que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da
casa, D. Leonor:
— Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque
era insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia.
Consultado, o juiz-de-fora respondeu que não havia matéria para opinião;
porque as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que
está contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral,
riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos
sujeitos da cidade, e sabia que era também jovial e inventivo, e até amigo da
pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era
gravíssimo.
— Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faça calar o Sr. Veloso.
— Não o faço calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca há de sair
tudo com boa significação.
— Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa.
— Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o
Sr. Veloso conhece outros livros...
— Conheço o autêntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce
que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se não mandam
o contrário.
— Vá lá, diga.
— Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus
que criou o mundo, foi o Diabo...
— Cruz! exclamaram as senhoras.
— Não diga esse nome, pediu D. Leonor.
— Sim, parece que... ia intervindo frei Bento.
— Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu
no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou
atenuar a obra, a fim de que ao próprio mal não ficasse a desesperança da
salvação ou do benefício. E a ação divina mostrou-se logo porque, tendo o
Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No
segundo dia, em que foram criadas as águas, nasceram as tempestades e os
furacões; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro
dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas só os vegetais sem fruto
nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porém,
criou as árvores frutíferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o
Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as
estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da
terra, da água e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peço que redobrem de
atenção.
Não era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.
Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo
depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar,
e só com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com
outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a
misericórdia divina; fez brotar um jardim de delícias, e para ali os conduziu,
investindo-os na posse de tudo. Um e outro caíram aos pés do Senhor,
derramando lágrimas de gratidão. "Vivereis aqui", disse-lhe o Senhor, "e
comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é a da ciência do
Bem e do Mal."
Adão e Eva ouviram submissos; e ficando sós, olharam um para o outro,
admirados; não pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os
bons sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos
de espancá-la. Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro,
ou na vista da natureza, que era esplêndida. Nunca até então viram ares tão
puros, nem águas tão frescas, nem flores tão lindas e cheirosas, nem o sol
tinha para nenhuma outra parte as mesmas
torrentes de claridade. E dando as mãos percorreram tudo, a rir muito, nos
primeiros dias, porque até então não sabiam rir. Não tinham a sensação do
tempo. Não sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplação. De tarde
iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente
chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos.
Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. Não podia
ir ao paraíso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor;
mas ouvindo um rumor no chão entre folhas secas, olhou e viu que era a
serpente. Chamou-a alvoroçado.
— Vem cá, serpe, fel rasteiro, peçonha das peçonhas, queres tu ser a
embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai?
A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o
Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a
mandasse, — às estrelas, se lhe desse as asas da águia — ao mar, se lhe
confiasse o segredo de respirar na água — ao fundo da terra, se lhe ensinasse
o talento da formiga. E falava a maligna, falava à toa, sem parar, contente e
pródiga da língua; mas o diabo interrompeu-a:
— Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem à terra, mas tão-somente ao
jardim de delícias, onde estão vivendo Adão e Eva.
— Adão e Eva?
— Sim, Adão e Eva.
— Duas belas criaturas que vimos andar há tempos, altas e direitas como
palmeiras?
— Justamente.
— Oh! detesto-os. Adão e Eva? Não, não, manda-me a outro lugar. Detestoos!
Só a vista deles faz-me padecer muito. Não hás de querer que lhes faça
mal...
— É justamente para isso.
— Deveras? Então vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda,
dize depressa o que queres que faça. Que morda o calcanhar de Eva?
Morderei...
— Não, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrário. Há no jardim
uma árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal; eles não devem tocar nela,
nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na árvore, e quando um deles
ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que é
a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que não, tu insistirás,
dizendo que é bastante comê-la para conhecer o próprio segredo da vida.
Vai, vai...
— Vou; mas não falarei a Adão, falarei a Eva. Vou, vou. Que é o próprio
segredo da vida, não?
— Sim, o próprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do
mal, e se te saíres bem, juro que terás a melhor parte na criação, que é a
parte humana, porque terás muito calcanhar de Eva que morder, muito
sangue de Adão em que deitar o vírus do mal... Vai, vai, não te esqueças...
Esquecer? Já levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraíso, rastejou até a
árvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu daí a pouco,
caminhando sozinha, esbelta, com a segurança de uma rainha que sabe que
ninguém lhe arrancará a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a
peçonha à língua, mas advertiu que estava ali às ordens do Tinhoso, e, com a
voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu.
— Quem me chama?
— Sou eu, estou comendo desta fruta...
— Desgraçada, é a árvore do Bem e do Mal!
— Justamente. Conheço agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida.
Anda, come e terás um grande poder na terra.
— Não, pérfida!
— Néscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que
te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido,
Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do
céu, e serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à
terra, escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais
queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta
obediência. Nem será só isso. Toda a natureza te fará bela e mais bela. Cores
das folhas verdes, cores do céu azul, vivas ou pálidas, cores da noite, hão de
refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, virá brincar nos
teus cabelos. Os filhos do teu seio tecerão para ti as melhores vestiduras,
comporão os mais finos aromas, e as aves te darão as suas plumas, e a terra
as suas flores, tudo, tudo, tudo...
Eva escutava impassível; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta
de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma
outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a
serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso.
Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel:
— Vai, arcanjo meu, desce ao paraíso terrestre, onde vivem Adão e Eva, e
traze-os para a eterna bem-aventurança, que mereceram pela repulsa às
instigações do Tinhoso.
E logo o arcanjo, pondo na cabeça o elmo de diamante, que rutila como
um milhar de sóis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Adão e Eva, e
disse-lhes:
— Salve, Adão e Eva. Vinde comigo para o paraíso, que merecestes pela
repulsa às instigações do Tinhoso.
Um e outro, atônitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obediência;
então Gabriel deu as mãos a ambos, e os três subiram até à estância eterna,
onde miríades de anjos os esperavam, cantando:
— Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue às obras do Tinhoso,
aos animais ferozes e maléficos, às plantas daninhas e peçonhentas, ao ar
impuro, à vida dos pântanos. Reinará nela a serpente que rasteja, babuja e
morde, nenhuma criatura igual a vós porá entre tanta abominação a nota da
esperança e da piedade.
E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras,
que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criação...
... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor
para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para
os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração
enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira
que falou:
— Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que
lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
— Lá o saberá o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo.
E o juiz-de-fora, levando à boca uma colher de doce:
— Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor,
se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na
verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de
Itapagipe?

FIM

Fonte
Portal Domínio Público





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2 - A Igreja do Diabo

de Machado de Assis



CAPÍTULO I
DE UMA IDÉIA MIRÍFICA


Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia
de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes,
sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem
organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário

contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto

magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos.
Acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:

— Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou

todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.


CAPÍTULO IIENTRE DEUS E O DIABO


Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que

engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

— Que me queres tu? perguntou este.

— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro
esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e
alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco.

Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do

preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?

— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,

— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o
aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre
vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra
fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há
tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no

espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer cousa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é

que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...

— Velho retórico! murmurou o Senhor.

— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do
mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos,
— com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel

fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.

— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua

espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos disse que não.
— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um
naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na
eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de
algodão?
— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta morte?
— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida
aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
— Retórico e subtil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama
todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai!
vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe

silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

CAPÍTULO IIIA BOA NOVA AOS HOMENS


Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a

cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos.
Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os
homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos

soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens.
Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele
nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos
darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os

indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si.
E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A
doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à
substância, porque, acerca da forma, era umas vezes subtil, outras cínica e
deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que

eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o 
Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes

golpes de eloqüência, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção delas,
fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude.

Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, cousas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do
homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as
vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer
duplicadamente.

E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição,

ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma
expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum
salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito
foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro
social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma
exceção foi logo eliminada. pela consideração de que o interesse, convertendo o
respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a

solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era urna simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo:

— Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas

cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.


CAPÍTULO IVFRANJAS E FRANJAS


A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo

acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o  tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia. porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis,
às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem
integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o

mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calavrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu te mpo de refletir, comparar

e concluir do espetáculo presente alguma cousa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:

— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas

de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão.
— Que queres tu? É a eterna contradição humana.

FIM

Fonte:
Portal Domínio Público




Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil (Wikipedia)


Um Apólogo de Machado de Assis

3 - Um Apólogo

de Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importese com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plicplic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Os Alerquins, de Machado de Assis.  foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil

Os Alerquins, de Machado de Assis.

4 - OS ARLEQUINS

SÁTIRA

(1864)

 Que deviendras dans l’éternité l’âme d’un
 homme qui a fait Polichinelle toute sa vie?
 M.ME DE STAEL

 Musa, depõe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
 Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
 Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
 Musa, toma a vergasta,
 E os arlequins fustiga!

 Como aos olhos de Roma,

— Cadáver do que foi, pávido império
 De Caio e de Tibério, —
O filho de Agripina ousado assoma;
 E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
 Pedia, ameaçando,
 O aplauso acostumado;

 E o povo que beijava

Outrora ao deus Calígula o vestido,
 De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
 E tu, tu não te abrias,
Ó céu de Roma, à cena degradante!
 E tu, tu não caías,
 Ó raio chamejante!

 Tal na história que passa

Neste de luzes século famoso,
 O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia populaça;
 Não busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
 Não encanta o ouvido,
 Fascina a consciência!

 Vede; o aspecto vistoso,

O olhar seguro, altivo e penetrante,
 E certo ar arrogante
Que impõe com aparências de assombroso;
 Não vacila, não tomba, 
Caminha sobre a corda firme e alerta:
 Tem consigo a maromba
 E a ovação é certa.

 Tamanha gentileza,

Tal segurança, ostentação tão grande,
 A multidão expande
Com ares de legítima grandeza.
 O gosto pervertido
Acha o sublime neste abatimento,
 E dá-lhe agradecido
 O louro e o monumento.

 Do saber, da virtude,

Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,
 Um manto de retalhos
Que a consciência universal ilude.
 Não cora, não se peja
Do papel, nem da máscara indecente,
 E ainda inspira inveja
 Esta glória insolente!

 Não são contrastes novos;

Já vem de longe; e de remotos dias
 Tornam em cinzas frias
O amor da pátria e as ilusões dos povos.
 Torpe ambição sem peias
De mocidade em mocidade corre,
 E o culto das idéias
 Treme, convulsa e morre.

 Que sonho apetecido

Leva o ânimo vil a tais empresas?
 O sonho das baixezas:
Um fumo que se esvai e um vão ruído;
 Uma sombra ilusória
Que a turba adora ignorante e rude;
 E a esta infausta glória
 Imola-se a virtude.

 A tão estranha liça

Chega a hora por fim do encerramento,
 E lá soa o momento
Em que reluz a espada da justiça.
 Então, musa da história,
Abres o grande livro, e sem detença
 À envilecida glória
 Fulminas a sentença. 


Machado de Assis
Crisálidas




Notas do autor.  Esta poesia foi recitada no Clube Fluminense, num sarau literário. Pareceu então que eu fazia sátira pessoal. Não fiz. A sátira abrange uma classe que se encontra em todas as cenas políticas, — é a classe daqueles que, como se exprime um escritor, depois de darem ao povo todas as insígnias da realeza, quiseram completar-lha, fazendo-se eles próprios os bobos do povo. 



Polônia, de Machado de Assis. Sua extensa obra constitui-se de nove romances, duzentos contos, dez peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas (Wikipedia)
Polônia, de Machado de Assis.



5 - POLÔNIA

 (1862)


E ao terceiro dia a alma deve voltar ao corpo,
e a nação ressuscitará.
MICKIEWICZ – LIVRO DA NAÇÃO POLACA.


Como aurora de um dia desejado,

Clarão suave o horizonte inunda.
É talvez amanhã. A noite amarga
Como que chega ao termo; e o sol dos livres,
Cansado de te ouvir o inútil pranto,
Ao fim ressurge no dourado Oriente.

Eras livre, — tão livre como as águas

Do teu formoso, celebrado rio;
 A coroa dos tempos
Cingia-te a cabeça veneranda;
E a desvelada mãe, a irmã cuidosa,
 A santa liberdade,
Como junto de um berço precioso,
À porta dos teus lares vigiava.

Eras feliz demais, demais formosa;

A sanhuda cobiça dos tiranos
Veio enlutar teus venturosos dias...
Infeliz! a medrosa liberdade
Em face dos canhões espavorida
Aos reis abandonou teu chão sagrado;
 Sobre ti, moribunda,
Viste cair os duros opressores:
Tal a gazela que percorre os campos,
 Se o caçador a fere,
Cai convulsa de dor em mortais ânsias,
 E vê no extremo arranco
 Abater-se sobre ela
Escura nuvem de famintos corvos.

Presa uma vez da ira dos tiranos,

 Os membros retalhou-te
Dos senhores a esplêndida cobiça;
Em proveito dos reis a terra livre
Foi repartida, e os filhos teus – escravos –
Viram descer um véu de luto à pátria
E apagar-se na história a glória tua.

A glória, não! – É glória o cativeiro 

Quando a cativa, como tu, não perde
A aliança de Deus, a fé que alenta,
E essa união universal e muda
Que faz comuns a dor, o ódio, a esperança.

Um dia, quando o cálix da amargura,

Mártir, até às fezes esgotaste,
Longo tremor correu as fibras tuas;
Em teu ventre de mãe, a liberdade
Parecia soltar esse vagido
Que faz rever o céu no olhar materno;
Teu coração estremeceu; teus lábios
Trêmulos de ansiedade e de esperança,
Buscaram aspirar a longos tragos
A vida nova nas celestes auras.

 Então surgiu Kosciusko;

Pela mão do Senhor vinha tocado;
A fé no coração, a espada em punho,
E na ponta da espada a torva morte,
Chamou aos campos a nação caída.
De novo entre o direito e a força bruta
Empenhou-se o duelo atroz e infausto
 Que a triste humanidade
Inda verá por séculos futuros.
Foi longa a luta; os filhos dessa terra
Ah! não pouparam nem valor nem sangue!
A mãe via partir sem pranto os filhos,
A irmã o irmão, a esposa o esposo,
 E todas abençoavam
A heróica legião que ia à conquista
 Do grande livramento.

 Coube às hostes da força

 Da pugna o alto prêmio;
 A opressão jubilosa
Cantou essa vitória da ignomínia;
E de novo, ó cativa, o véu de luto
Correu sobre teu rosto!
 Deus continha
Em suas mãos o sol da liberdade,
E inda não quis que nesse dia infausto
Teu macerado corpo alumiasse.

Resignada à dor e ao infortúnio,

A mesma fé, o mesmo amor ardente
 Davam-te a antiga força.
Triste viúva, o templo abriu-te as portas; 
Foi a hora dos hinos e das preces;
Cantaste a Deus; tua alma consolada
Nas asas da oração aos céus subia,
Como a refugiar-se e a refazer-se
 No seio do infinito.
E quando a força do feroz cossaco
À casa do Senhor ia buscar-te,
 Era ainda rezando
Que te arrastavas pelo chão da igreja.

Pobre nação! – é longo o teu martírio;

A tua dor pede vingança e termo;
Muito hás vertido em lágrimas e sangue;
É propícia esta hora. O sol dos livres
Como que surge no dourado Oriente.
 Não ama a liberdade
Quem não chora contigo as dores tuas;
E não pede, e não ama, e não deseja
Tua ressurreição, finada heróica! 


Machado de Assis
Crisálidas


Notas do Autor
Eras livre, tão livre como as águas
 Do teu formoso, celebrado rio.
 O rio a que aludem os versos é o Niemen. É um dos rios mais cantados pelos poetas polacos. Há um soneto
de Mickiewicz ao Niemen, que me agradou muito, apesar da prosa francesa em que o li, e do qual escreve um crítico
polaco: “ Há nesta página uma cantilena a que não resiste nenhum ouvido eslavo; foi posta em música pelo célebre
Kurpinski. Assim consagrado, o soneto de Niemen correu toda a Polônia, e só deixará de viver quando deixarem de
correr as águas daquele rio.”
 Foi a hora dos hinos e das preces.
 Alude às cenas da Varsóvia, em que este admirável povo ia aos templos cantar ladainhas sobre a música
dos hinos nacionais, a despeito da invasão da tropa armada nas igrejas. É sabido que por esse motivo se fecharam os templos. 




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