5 Poemas de Emílio de Meneses

Poemas sobre a Morte. Sobre a morte de José do patrocínio. Emílio Nunes Correia de Meneses (Curitiba, 4 de julho de 1866 — Rio de Janeiro, 6 de junho de 1918) foi um jornalista e poeta parnasiano brasileiro, imortal da Academia Brasileira de Letras e mestre dos sonetos satíricos.


5 Poemas de Emílio de Meneses


  1. Sobre a Morte de José do Patrocínio
  2. Campo Santo
  3. Funeral de um Lyrio
  4. Pórtico
  5. No Gólgota




Sobre a morte de José do patrocínio.


SOBRE A MORTE DE JOSÉ DO PATROCÍNIO

I

Crestada ao sol de atroz verão, pendia
A tulipa do Sonho e do Talento.
Mas quem da rara flor perto sabia
Que ela soltava o derradeiro alento?

Por que motivo hoje é tão claro o dia
E anda no céu este deslumbramento?
Da Natureza, oh! Trágica ironia!
- A terra em luto e em gala o Firmamento? –

É que Tu, mais ao céu que à terra inteira,
Estendias teu mágico domínio!
Águia pairando à cérula fronteira!

Não te queria o céu ver em declínio,
E se te chora a pátri brasileira,
Ele em pompas te aguarda, Patrocínio!


II

Hoje, afinal a Terra reconquista
Todo o seu grande e maternal direito,
Recebendo em seu seio o Filho Eleito,
- O, da palavra, Poderoso Artista!

Que o nunca repousado Jornalista
Tenha repouso, enfim, no eterno leito!
E aos funerais de um Justo e de um Perfeito,
O mundo inteiro comovido assista!...

Ninguém mais rico em gênio, nem mais nobre.
Entanto, Esse que baixa à sepultura,
É um nababo que morre humilde e pobre!

Negro feito da essência da brancura,
Esse que a Terra hoje em seu seio cobre,
Sóis porjeva pela pele escura!


Emílio de Meneses




CAMPO SANTO


Eis-me afinal de novo entre os meus bons convivas,
Só com meus sonhos, só, com a minha saudade,
E as mortas ilusões e ilusões redivivas
De que o morto passado a alma toda me invade.

Porque se me hão de impor, fortes e decisivas,
As descrenças dos que, sem fé, sem caridade,
Sem esperança, vêm dessas alternativas
De mal fingido amor e fingida piedade?

Sinto-me preso aqui. Entre angústias me envolvo,
- Esfinge que se envolve entre os arcais da Líbia -
Mas o fatal problema entre audácias resolvo:

Alma! que importa a dor que te devora? Exibe-a
Ante a morte que em seus tentáculos de polvo
Mói crânio contra crânio e tíbia contra tíbia!

Emílio Meneses



FUNERAL DE UM LYRIO


À angelical memória de Judith Barros

Faces brancas que outrora os rosais da saúde
Coloriram de um tom de púrpura e de opala,
E o sol que vive à flor de cada juventude
Aureamente aureolou de uma aurora de gala;

Boca que o leve odor do sonho e da virtude
Trescalava ao soltar os violinos da fala,
Olhos! - astros no brilho e noite na amplitude,
Tudo, enfim, que era dela hoje a morte avassala!

Dos olhos resta a noite, - o amplo olhar apagado,-
A boca se calou na sombra e no mysterio,
E ela as faces velou no lúgubre noivado.

Virgem morta! a envolvê-la em seu leito funéreo,
Só tem ela o palor de um mármore inundado,
Da lividez do luar dentro de um cemitério!...



Emílio de Meneses


PÓRTICO


Naquele olhar em que moram meu sonho e guia,
E onde vou procurar tudo que almejo e quero,
Embalde busco a vida. A efêmera alegria
Do viver, não perturba o seu fulgor sincero.

Nada que for terreno e alegre cante ou ria,
Vive nesse altar de onde o bem supremo espero;
Mas há nele o perdão, graças de Ave-Maria,
Prenúncios de além-céu em cada raio austero.

Necrólatras que andais na eterna romaria
Dos túmulos, buscando algum sonho que o fero
Destino arrebatou de voss'alma sombria,

A mim, que sou da Morte, o impenitente Ahasvero,
Vinde, eu vos mostrarei, cantando esta elegia,
Tudo que ainda sonhais, naquele olhar severo.


Emílio de Meneses


NO GÓLGOTA


I

"-Para atenuar o horror desta vida sem tréguas,
Sondo-a e busco entendê-la, arcano por arcano.
Para que as más paixões te não sigam, carrego-as
Sobre os frágeis e vis ombros de humilde e humano.

As dores que este sofre e aquele sofre, rego-as
Só do meu pranto, só do meu sangue espartano." –
E assim falando o Poeta, a voz, léguas e léguas,
Por terra e céus se ouviu num clangor soberano.

Mas tudo emudeceu ante o voto supremo...
E nem um Cireneu ao novo Cristo: e a carga,
Ele a leva, a cantar, de um extremo a outro extremo!

E oh! Poeta! O mundo só te dá para tão larga,
Missão, diante da qual também arquejo e tremo,
A dor que mais te dói e o fel que mais te amarga.

II

Rugem-te em derredor os Fariseus e Escribas
E a alma humana moderna – essa nova Aquerusa
De pauis marginais e pestilentes ribas –
Busca, embalde, afogar-te a imorredoura Musa.

Grandiosa ou meiga ou pura, uma idéia que exibas
Irritas a multidão que raivosa te acusa.
Mas do Outeiro da Luz a que afinal arribas,
Hás de vê-la a teus pés deslumbradas e confusa.

Tu, cujo verso em forma e em colorido assume
Revelos de Cellini ou tintas de Correggio,
Quer eleves o amor, quer exaltes o ciúme,

Sofre e sangra por teu sonho de ideal. Inveje-o
Embora, o mundo vil! Todo o teu ser resume,
Na plenitude astral daquele sonho egrégio!...

III

Do sonho que te aclara o luminoso espectro,
Cor a cor, queres dar na cambiante da rima.
Lira d’oiro entre mãos, a desferi-la ao plectro,
Verso a verso vais ter do teu Gólgota acima.

Lapidário tenaz, no tórculo do metro
Premes a forma e a forma entre os teus versos prima;
Passo a passo eu te sigo e esse abysmo penetro,
A cujo centro, em fogo, o teu estro se anima.

Quer tenhas sobre ti bênçãos que o céu reparte,
Ou tenhas o que sofro, examino e contemplo,
- Venhas de tu um Paul ou de algum templo de arte, -

Deves sempre seguir o fatídico exemplo:
Para que o mundo vil possa um dia adorar-te
É preciso enxotar os vendilhões do Templo.

IV

Se além de um Sinedrim de inúmeros Caifazes
Cuja falsa noção, do sonho de seqüestra;
Se do lenho, apesar, que sobre os ombros trazes,
Nessa face divina Ahasvero espalma a destra;

Se não gozas em vida essas glórias falazes
Em cujo meio vil a alma dos vis se amestra,
Tens em compensação, dos teus versos audazes,
Vibrando eternamente, a formidanda orquestra.

Para te alvorecer a existência sombria,
Tiveste, no Jordão, da água lustra a cena
Cuja recordação na alma humana irradia,

E atingiste os dois graus de ventura terrena;
Sugaste ao nascimento o seio de Maria,
E do cimo da Cruz, vês o de Madalena!...

V

Que importa que Adriano em profanosa cena
Chegue ao Gólgota e insulte a tua catacumba?
Após ele terás a imperatriz Helena,
Quer triunfe o teu estro ou teu estro sucumba.

Se sofres do martírio as dores, pena a pena,
O clangor do teu verso entre glórias retumba.
- Que te importa sofrer se a tortura é pequena
Ante o peso com que teu verbo as almas chumba?

Seja o teu tribunal de cátedra ou de exédra;
Tenha o teu leito embora um cravo em cada fulcro,
Sabes que no porvir somente o gênio medra.

Certo, resplenderá teu espírito pulchro,
E, ao tombar sobre ti da tumba a horrenda pedra,
Todos irão beijar o teu Santo Sepulchro.

VI

Que vale teres tido, a iniqüidade humana,
Escribas, fariseus, Cartáfilos e Herodes?
Eles só podem ver pela Santa Semana
O quanto a alma dos bons pelo teu bom acordes.

Redres a cepa sempre, e sempre a rama podes
Dessa Vinha de Fé de onde o teu sangue emana,
E ela viverá nos psalmos e nas odes
Que te ouvem desferir à lyra soberana.

Catharma resplendente o teu martyrio esvurma
Luzes, sóis e não pus, quer o gênio apostrofes,
quer do gênio em teu leito um gênio amigo durma.

Hás de enfim ressurgir, sonhes ou filososfes,
E ante, dos guardas teus, a laucinada turma,
Escalarás o céu num resplendor de Estrofes!...



Emílio de Meneses








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