5 Lindos Poemas de Gonçalves Dias

A sua obra enquadra-se no Romantismo, pois, a semelhança do que fizeram os seus correlegionários europeus, procurou formar um sentimento nacionalista ao incorporar assuntos, povos e paisagens brasileiras na literatura nacional. (Wikipedia) 


O Canto do Piaga, de Gonçalves Dias.


A Leviana


Souvent femme varie,
Bien fol est qui s'y fie.
-- Francisco I


És engraçada e formosa
Como a rosa,
Como a rosa em mês d'Abril;
És como a nuvem doirada
Deslizada,
Deslizada em céus d'anil.

Tu és vária e melindrosa,
Qual formosa
Borboleta num jardim,
Que as flores todas afaga,
E divaga
Em devaneio sem fim.

És pura, como uma estrela
Doce e bela,
Que treme incerta no mar:
Mostras nos olhos tua alma
Terna e calma,
Como a luz d'almo luar. 

Tuas formas tão donosas,
Tão airosas,
Formas da terra não são;
Pareces anjo formoso,
Vaporoso,
Vindo da etérea mansão.

Assim, beijar-te receio,
Contra o seio
Eu tremo de te apertar:
Pois me parece que um beijo
É sobejo
Para o teu corpo quebrar.

Mas não digas que és só minha!
Passa asinha
A vida, como a ventura;
Que te não vejam brincando,
E folgando
Sobre a minha sepultura.

Tal os sepulcros colora
Bela aurora
De fulgores radiante;
Tal a vaga mariposa
Brinca e pousa
Dum cadáver no semblante. 


Gonçalves Dias
Primeiros Cantos


Gonçalves dias foi Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo", é famoso por ter escrito o poema "Canção do Exílio" (Wikipedia)


O Canto do Piaga


I
Ó GUERREIROS da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribu Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.

Esta noite - era a lua já morta -
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodígios que vil
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o acendi!

Eis rebenta a meus pés um fantasma,
Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.

O meu sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro - ossos, carnes - tremi,
Frio horror me coou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!

II

Por que dormes, Ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a falar,
Por que dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.

Tu não viste nos céus um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?

Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem - vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?

E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te proíbe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não podes augúrios cantar?! 

Ouve o anúncio do horrendo fantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugiram da Taba!
Ó desgraça! Ó ruína! Ó Tupá!

III

Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, i vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas tais monstros contêm.

Traz embira dos cimos pendente
- Brenha espessa de vário cipó -
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Tais e quais, mas com folhas; é so!

Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas asas abrindo ao tufão,
Como um bando de cândidas garças,
Que nos ares pairando - lá vão.

Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro... - o que vem cá buscar?

Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade -
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.

Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribu Tupi vai gemer;
Hão-de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser?

Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.

Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugiram da Taba,
Ó desgraça! ó ruína!! ó Tupá! 



Gonçalves Dias
Primeiros Cantos




Gonçalves dias foi um poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro.


O Canto do Índio


Quando o sol vai dentro d'água
Seus ardores sepultar,
Quando os pássaros nos bosques
Principiam a trinar;

Eu a vi, que se banhava...
Era bela, ó Deuses, bela,
Como a fonte cristalina,
Como luz de meiga estrela.

Ó Virgem, Virgem dos Cristãos formosa,
Porque eu te visse assim, como te via,
Calcara agros espinhos sem queixar-me,
Que antes me dera por feliz de ver-te.

O tacape fatal em terra estranha
Sobre mim sem temor veria erguido;
Dessem-me a mim somente ver teu rosto
Nas águas, como a lua, retratado.

Eis que os seus loiros cabelos
Pelas águas se espalhavam,
Pelas águas, que de vê-los
Tão loiros se enamoravam.

Ela erguia o colo ebúrneo,
Por que melhor os colhesse;
Níveo colo, quem te visse,
Que de amores não morresse!

Passara a vida inteira a contemplar-te,
Ó Virgem, loira Virgem tão formosa,
Sem que dos meus irmãos ouvisse o canto,
Sem que o som do Boré que incita à guerra
Me infiltrasse o valor que m'hás roubado,
Ó Virgem, loira Virgem tão formosa.

As vezes, quando um sorriso
Os lábios seus entreabria,
Era bela, oh! mais que a aurora
Quando a raiar principia.

Outra vez - dentre os seus lábios
Uma voz se desprendia;
Terna voz, cheia de encantos,
Que eu entender não podia.

Que importa? Esse falar deixou-me n'alma
Sentir d'amores tão sereno e fundo,
Que a vida me prendeu, vontade e força
Ah! que não queiras tu viver comigo,
Ó Virgem dos Cristãos, Virgem formosa! 

Sobre a areia, já mais tarde,
Ela surgiu toda nua;
Onde há, ó Virgem, na terra
Formosura como a tua!?

Bem como gotas de orvalho
Nas folhas de flor mimosa,
Do seu corpo a onda em fios
Se deslizava amorosa.

Ah! que não queiras tu vir ser rainha
Aqui dos meus irmãos, qual sou rei deles!
Escuta, ó Virgem dos Cristãos formosa.
Odeio tanto aos teus, como te adoro;
Mas queiras tu ser minha, que eu prometo
Vencer por teu amor meu ódio antigo,
Trocar a maça do poder por ferros
E ser, por te gozar, escravo deles. 

Gonçalves Dias

Primeiros Cantos


Ao lado de José de Alencar, desenvolveu o Indianismo. Pela sua importância na história da literatura brasileira, podemos dizer que Gonçalves Dias incorporou uma ideia de Brasil à literatura nacional.


Deprecação


Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto
Com denso velâmen de penas gentis;
E jazem teus filhos clamando vingança
Dos bens que lhes deste da perda infeliz!

Tupã, ó Deus grande! teu rosto descobree:
Bastante sofremos com tua vingança!
Já lágrimas tristes choraram teus filhos
Teus filhos que choram tão grande mudança.

Anhangá impiedoso nos trouxe de longe
Os homens que o raio manejam cruentos,
Que vivem sem pátria, que vagam sem tino
Trás do ouro correndo, voraces, sedentos.

E a terra em que pisam, e os campos e os rios
Que assaltam, são nossos; tu és nosso Deus :
Por que lhes concedes tão alta pujança,
Se os raios de morte, que vibram, são teus?

Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto
Com denso velâmen de penas gentis;
E jazem teus filhos clamando vingança
Dos bens que lhes deste da perda infeliz.

Teus filhos valentes, temidos na guerra,
No albor da manhã quão fortes que os vi!
A morte pousava nas plumas da frecha,
No gume da maça, no arco Tupi!

E hoje em que apenas a enchente do rio .
Cem vezes hei visto crescer e baixar...
Já restam bem poucos dos teus, qu'inda possam
Dos seus, que já dormem, os ossos levar.

Teus filhos valentes causavam terror,
Teus filhos enchiam as bordas do mar,
As ondas coalhavam de estreitas igaras,
De frechas cobrindo os espaços do ar.

Já hoje não caçam nas matas frondosas
A corça ligeira, o trombudo quati...
A morte pousava nas plumas da frecha,
No gume da maça, no arco Tupi!

O Piaga nos disse que breve seria, 
A que nos infliges cruel punição;
E os teus inda vagam por serras, por vales,
Buscando um asilo por ínvio sertão!

Tupã, ó Deus grande! descobre o teu rosto:
Bastante sofremos com tua vingança!
Já lágrimas tristes choraram teus filhos,
Teus filhos que choram tão grande tardança.

Descobre o teu rosto, ressurjam os bravos,
Que eu vi combatendo no albor da manhã;
Conheçam-te os feros, confessem vencidos
Que és grande e te vingas, qu'és Deus, ó Tupã! 

Gonçalves Dias 

Primeiros Cantos



O Soldado Espanhol


Un soldat au dur visage
-- V. Hugo


I

Oh! qui révélera les troubles, les mystères
Que ressentent d'abord deux amants solitaires
Dans l'abandon d'un chaste amour?
-- Amour et Foi

O céu era azul, tão meigo e tão brando,
A terra tão erma, tão quieta e saudosa,
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa.

O céu era azul, e na cor semilhava
Vestido sem nódoa de pura donzela;
E a terra era a noiva que bem se arreava
De flores, matizes; mas vária, mas bela.

Ela era brilhante,
Qual raio do sol;
E ele arrogante,
De sangue espanhol.

E o espanhol muito amava
A virgem mimosa e bela;
Ela amante, ele zeloso
Dos amores da donzela; 
Ele tão nobre e folgando
De chamar-se escravo dela!

E ele disse: - Vês o céu? -
E ela disse: - Vejo. sim;
Mais polido que o polido
Do meu véu azul cetim. -
Torna-lhe ele. .. (oh! quanto é doce
Passar-se uma noite assim!).

- Por entre os vidros pintados
D'igreja antiga, a luzir
Não vês luz? - Vejo. - E não sentes
De a veres, meigo sentir?
- É doce ver entre as sombras
A luz do templo a luzir!

- E o mar, além, preguiçoso
Não vês tu em calmaria?
- É belo o mar; porém sinto,
Só de o ver, melancolia.
- Que mais o teu rosto enfeita
Que um sorriso de alegria.

- E eu tão bem acho em ser triste
Do que alegre, mais prazer;
Sou triste, quando em ti penso,
Que só me falta morrer;
Mesmo a tua voz saudosa
Vem minha alma entristecer.

- E eu sou feliz, como agora,
Quando me falas assim;
Sou feliz quando se riem
Os lábios teus de carmim;
Quando dizes que me, adoras,
Eu sinto o céu dentro em mim.

- És tu só meu Deus, meu tudo,
És tu só meu puro amar,
És tu só que o pranto podes
Dos meus olhos enxugar. -
Com ela repete o amante:
- És tu só meu puro amar! -

E o céu era azul, tão meigo e tão brando
E a terra tão erma, tão só, tão saudosa,
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa!


II

Ainsi donc aujourd'hui, demain, après encore,
Il faudra voir sans tal naître et mourir l'aurore! 

-- V. Hugo

E o espanhol viril, nobre e formoso,
No bandolim
Seus amores dizia mavioso,
Cantando assim:

"Já me vou por mar em fora
Daqui longe a mover guerra,
Já me vou, deixando tudo,
Meus amores, minha terra.

"Já me vou lidar em guerras,
Vou-me a Índia ocidental;
Hei de ter novos amores. . .
De guerras... não temas al.

"Não chores, não, tão coitada,
Não chores por t'eu deixar;
Não chores, que assim me custa
O pranto meu sofrear.

"Não chores! - sou como o Cid
Partindo para a campanha;
Não ceifarei tantos louros,
Mas terei pena tamanha."

E a amante que assim o via
Partir-se tão desditoso,
- Vai, mas volta; lhe dizia:
Volta, sim, vitorioso.

"Como o Cid, oh! crua sorte
Não me vou nesta campanha
Guerrear contra o crescente,
Porém sim contra os d'Espanha!

"Não me aterram; porém sinto
Cerrar-se o meu coração,
Sinto deixar-te, meu anjo,
Meu prazer, minha afeição.

"Como é doce o romper d'alva,
É-me doce o teu sorrir,
Doce e puro, qual d'estrela
De noite - o meigo luzir.

"Eram meus teus pensamentos,
Teu prazer minha alegria,
Doirada fonte d'encantos,
Fonte da minha poesia.

"Vou-me longe, e o peito levo
Rasgado de acerba dor, 
Mas comigo vão teus votos,
Teus encantos, teu amor!

"Já me vou lidar em guerras,
Vou-me a Índia ocidental;
Hei de ter novos amores. . .
De guerras... não temas al."

Esta era a canção que acompanhava
No bandolim,
Tão triste, que de triste não chorava
Dizendo assim:

III

O Conde deu o sinal da partida
- À caça! meus amigos.
-- Burger

"Quero, pajens, selado o ginete,
Quero em punho nebris e falcão,
Qu'é promessa de grande caçada
Fresca aurora d'amigo verão.

"Quero tudo luzindo, brilhante
- Curta espada e venab'lo e punhal,
Cães e galgos farejem diante
Leve odor de sanhudo animal.

"E ai do gamo que eu vir na coutada,
Corça, onagro, que eu primo avistar!
Que o venab'lo nos ares voando
Lhe há de o salto no meio quebrar.

Eia, avante! - Dizia folgando
O fidalgo mancebo, loução:
- Eia, avante? - e já todos galopam
Trás do moço, soberbo infanção.

E partem, qual do arco arranca e voa
Nos amplos ares, mais veloz que a vista,
A plúmea seta da entesada corda.
Longe o eco reboa: - já mais fraco,
Mais fraco ainda, pelos ares voa.
Dos cães dúbio o latir se escuta apenas,
Dos ginetes tropel, rinchar distante
Que em lufadas o vento traz por vezes.
Já som nenhum se escuta... Quê? - latido
De cães, incerto, ao longe? Não, foi vento
Na torre castelã batendo acaso,
Nas seteiras acaso sibilando
Do castelo feudal, deserto agora. 


IV

Vois, à l'horizon
Aucune maison?
- Aucune.
-- V. Hugo

Já o sol se escondeu; cobre a terra
Belo manto de frouxo luar;
E o ginete, que esporas atracam,
Nitre e corre sem nunca parar.
Da coutada nas ínvias ramagens
Vai sozinho o mancebo infanção;
Vai sozinho, afanoso trotando
Sem temores, sem pajens, sem cão.
Companheiros da caça há perdido,
Há perdido no aceso caçar;
Há perdido, e não sente receio
De sozinho, nas sombras trotar.
Corno ebúrneo embocou muitas vezes,
Muitas vezes de si deu sinal;
Bebe atento a resposta, e não ouve
Outro som responder-lhe; inda mal!
E o ginete que esporas atracam,
Nitre e corre sem nunca parar;
Já o sol se escondeu, cobre a terra
Belo manto de frouxo luar.


V
De rosée
Arrosée.
La rose a moins de fraîcheur.
-- Henrique IV

Silêncio grato da noite
Quebram sons duma canção,
Que vai dos lábios de um anjo
Do que escuta ao coração.

Dizia a letra mimosa
Saudades de muito amar;
E o infanção enleiado 
Atento, pôs-se a escutar.

Era encantos voz tão doce,
Incentivo essa ternura,
Gerava delícias n'alma
Sonhar d'havê-la a ventura.

Queixosa cantava a esposa
Do guerreiro que partiu,
Largos anos são passados,
Missiva dele não viu. . .

Parou!... escutando ao perto
Responder-lhe outra canção!...
Era terna a voz que ouvia,
Lisonjeira - do infanção:

"Tenho castelo soberbo
Num monte, que beija um rio,
De terras tenho no Doiro
Jeiras cem de lavradio;

"Tenho lindas haquenéias,
Tenho pajens e matilha,
Tenho os milhores ginetes
Dos ginetes de Sevilha;

"Tenho punhal, tenho espada
D'alfageme alta feitura,
Tenho lança, tenho adaga,
Tenho completa armadura.

"Tenho fragatas que cingem
Dos mares a linfa clara,
Que vão preiando piratas
Pelas rochas de Megara.

"Dou-te o castelo soberbo
E as terras do fértil Doiro,
Dou-te ginetes e pajens
E a espada de pomo d'oiro.

"Dera a completa armadura
E os meus barcos d'alto-mar,
Que nas rochas de Megara
Vão piratas cativar.

"Fala de amores teu canto,
Fala de acesa paixão. . .
Ah! senhora, quem tivera
Dos agrados teus condão!

"Eu sou mancebo, sou Nobre,
Sou nobre moço infanção;
Assim podesse o meu canto
Algemar-te o coração,
Ó Dona, que eu dera tudo
Por vencer-te essa isenção!

Atenta escutava a esposa
Do guerreiro que partiu,
Largos anos são passados,
Missiva dele não viu;
Mas da letra que escutava
Delícias n'alma sentiu.


VI

Si tu voulais, Madeleine,
Je te ferais châtelaine;
Je suis le comte Roger: -
Quitte pour moi ces chaumières,
A moins que tu me préfères
Que je me fasse berger.
-- V. Hugo

E noutra noite saudoso
Bem junto dela sentado,
Cantava brandas endechas
O gardingo namorado.

"Careço de ti, meu anjo,
Careço do teu amor,
Como da gota d'orvalho
Carece no prado a flor.

"Prazeres que eu nem sonhava
Teu amor me fez gozar;
Ah! que não queiras, senhora,
Minha dita rematar.

"O teu marido é já morto,
Notícia dele não soa;
Pois desta gente guerreira
Bastos ceifa a morte à toa.

"Ventura me fora ver-te
Nos lábios teus um sorriso,
Delícias me fora amar-te,
Gozar-te meu paraíso.

"Sinto aflição, quando choras;
Se te ris, sinto prazer;
Se te ausentas, fico triste,
Que só me falta morrer.

"Careço de ti, meu anjo,
Careço do teu amor, 
Como da gota d'orvalho
Carece no prado a flor."

VII

L'époux, dont nul ne se souvient,
Vient;
Il va punir ta vie infâme,
Femme!
-- V. Hugo

Era noite hibernal; girava dentro
Da casa do guerreiro o riso, a dança,
E reflexos de luz, e sons, e vozes,
E deleite, e prazer: e fora a chuva,
A escuridão, a tempestade, e o vento,
Rugindo solto, indômito e terrível
Entre o negror do céu e o horror da terra.
Na geral confusão os céus e a terra
Horrenda simpatia alimentavam.

Ferve dentro o prazer, reina o sorriso,
E fora a teritar, fria, medonha,
Marcha a vingança pressurosa e torva:
Traz na destra o punhal, no peito a raiva,
Nas faces palidez, nos olhos morte.
O infanção extremoso enchia rasa
A taça de licor mimoso e velha,
Da usança ao brinde convidando a todos
Em honra da esposada: - À noiva! exclama.

E a porta range e cede, e franca e livre
Introduz o tufão, e um vulto assoma
Altivo e colossal. - Em honra, brada,
Do esposo deslembrado! - e a taça empunha,
Mas antes que o licor chegasse aos lábios,
Desmaiada e por terra jaz a esposa,
E a destra do infanção maneja o ferro,
Por que tão grande afronta lave o sangue,
Pouco, bem pouco para injúria tanta.
Debalde o fez, que lhe golfeja o sangue
D'ampla ferida no sinistro lado,
E ao pé da esposa o assassino surge
Co'o sangrento punhal na destra alçado.

A flor purpúrea que matiza o prado,
Se o vento da manhã lhe entorna o cálix,
Perde aroma talvez; porém mais belo
Colorido lhe vem do sol nos raios.
As fagueiras feições daquele rosto
Assim foram tão bem; não foi do tempo
Fatal o perpassar às faces linda
Nota-lhe ele as feições, nota-lhe os lábios,
Os curtos lábios que lhe deram vida,
Longa vida de amor em longos beijos,
Qual jamais não provou; e as iras todas
Dos zelos vingadores descansaram
No peito de sofrer cansado e cheio,
Cheio qual na praia fica a esponja,
Quando a vaga do mar passou sobre ela.

Num relance fugiu, minaz no vulto:
Como o raio que luz um breve instante,
Sobre a terra baixou, deixando a morte. 

Gonçalves Dias

Primeiros Cantos




Sobre a obra de Gonçalves Dias um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira —, o curto poema épico I-Juca-Pirama e muitos outros poemas nacionalistas e patrióticos, além de seu segundo mais conhecido poema chamado: Cancões de Exílio 



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